Expressões estrangeiras invadem São Paulo e Santa Catarina*

Apesar de apenas 0,22% da população brasileira ser de imigrantes, influências do Inglês se intensificam

28/07/12, 03h06

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010 mostram que existem cerca de 433 mil imigrantes no Brasil, o equivalente a 0,22% da população. Só para se estabelecer um comparativo, em países como Canadá e Austrália, a taxa de imigrantes varia entre 22% e 27%.

Nos anos 40 do século passado, nosso país chegou a ter 1,3 milhão de pessoas vindas de outras nações. No entanto, a utilização de expressões estrangeiras por parte dos brasileiros vem crescendo vertiginosamente. Podem-se encontrar facilmente palavras vindas principalmente do Inglês no vocabulário cotidiano: em placas, propaganda, nomes de empresas e em praticamente tudo ao redor.

O linguista Miguel Ventura Santos Gois, professor da Universidade Tiradentes (UNIT), em sua monografia “A influência dos estrangeirismos na Língua Portuguesa: um processo de globalização, ideologia e comunicação”, fala que as influências externas em nossa língua começaram com a chegada dos portugueses ao Brasil. A partir daí, o Português Brasileiro adquiriu palavras da língua africana e do Tupi. Assim, nosso vocabulário se distanciou do idioma falado em Portugal.

É claro que o Inglês está presente em nossas conversas de forma mais massiva. “O inglês afetou o modo como as pessoas se comunicam, muitas vezes pode-se identificar traços e falas de seriados e músicas famosas vindas dos Estados Unidos. Observo que a maior influência vem do seriado Friends e dos cantores que estão em alta, dependendo da temporada. Filmes também têm seu lugar nas influências do cotidiano, mas não tanto como as séries e as músicas”, afirma o ex-professor de inglês da Fisk e diagramador Raphael Kakazu, 19, que mora na cidade de São Paulo há 2 anos.

“Vejo muitas gírias estrangeiras sendo usadas, principalmente fuck, bitch, hot, hell, God e shit”, comenta Kakazu sobre seu dia a dia. Sobre a invasão de estrangeirismos no vocabulário paulista, o diagramador é categórico, dizendo que “isso torna cada pessoa mais única no meio dos clichês que todos usam. Cada expressão usada, cada gíria e cada comportamento inspirado no estrangeiro, é uma forma da pessoa expressar sua individualidade perante a sociedade”.

Fica evidente, portanto, que estamos não só absorvendo palavras e expressões, mas também cultura, um modo de vida, referenciais vindos de países tidos como exemplo. “Pode-se vislumbrar uma intencional utilização do estrangeirismo como busca de identidade cultural. Os Estados Unidos, metáfora de um excelente padrão de vida, estariam representados em seus vocábulos”, salienta Miguel Ventura em seu estudo destacado. Imitar o modo como se fala nas terras do Tio Sam é uma forma de vivenciar seu cotidiano, ser como as pessoas tidas como referencial de economia, estilo, comportamento e até mesmo moda.

Sendo as principais capitais do país a olhar para o mundo e incorporar tendências, para então repassá-las a todo o Brasil na forma de programas televisivos, produtos ou publicações, Santa Catarina e Florianópolis também passam pelo mesmo processo de transformação linguística que São Paulo.

“Acredito que as expressões mais comuns em Florianópolis são de origem da língua inglesa. As de países europeus também são muito comuns por conta da quantidade de descendentes europeus que aqui residem. Mas noto que é mais comum ouvir esse tipo de expressão nas reuniões e festas familiares, e não em ambientes de amigos, trabalho, etc.”, ressalta a webdesigner Francielli Schuelter, 23, que tem conhecimentos intermediários de inglês, mora em Florianópolis desde que nasceu e cursa Economia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

“Como minha família é de origem alemã, não podia ser diferente. Em casa sempre saem algumas expressões do tipo: bauch voll, schwein, kartoffel, entre outras. Principalmente no momento das refeições”, comenta Francielli. As expressões vindas de fora também são numerosas no sul do Brasil, tais como “que bad, fake, night, sorry, schwuler – essa é mais por conta de palhaçada entre os meus amigos mais próximos -, affair, hot, trash e mix”, completa a webdesigner.

É interessante notar que o próprio Facebook trouxe ao país pequenos elementos do Espanhol e do Francês através dos populares Memes – tiras de quadrinhos, fotos ou desenhos de personagens cômicos estilizados, que usuários dessa rede social compartilham entre si. O impacto, nesse caso, se estende a toda a parte do território nacional em que existam pessoas conectadas ao Face.

“O Espanhol se tornou muito influente depois que os Memes do Facebook começaram a introduzir certas expressões que se fixaram na nossa fala do dia a dia. Porém, antes disso era difícil notar influências espanholas no vocabulário”, analisa o ex-professor de Inglês Raphael Kakazu.

Uma das expressões do Espanhol, nesse caso, é a do Meme “Me Gusta”, usado quando uma pessoa quer dizer que está gostando de algo. “Outra língua estrangeira a ser trazida pelos Memes foi o Francês, com a expressão “Le” [alguém fazendo alguma coisa], algo que até então não era visto em nossa fala coloquial”, destaca Kakazu. Na prática, encontramos com facilidade tiras de HQ no Facebook como “Le eu indo pra escola”, que se pode traduzir como “Olha só eu indo pra escola”.

Não podemos deixar de notar que esses empréstimos de expressões estrangeiras serviam para falar de conceitos que ainda não tinham uma palavra em português para usar em sua definição. Agora, a utilidade é de afirmação de identidade cultural. “Usar o empréstimo linguístico seria, então, uma opção mais por imposição de uma estrutura que por consciência. Se, por um lado, isso representa modificação da linguagem, por outro representa um enriquecimento cultural”, frisa o linguista Miguel Ventura em seu trabalho acadêmico.

“De qualquer forma, é interessante ressaltar que não se pode, num mundo cujo funcionamento tem se globalizado e cujas relações se fazem por meios como a televisão e a Internet, isolar completamente uma cultura ou uma língua. Mais importante seria tornar os usuários dessa língua cientes do fenômeno para que essa adoção de estrangeirismos seja uma opção meramente. É preciso ter essa consciência para que se faça melhor uso de tão rica troca”, conclui Ventura.

*Reportagem originalmente escrita pra um trabalho de fim de 5° semestre na facul de Jornalismo. Se te interessa saber, levei só 7,5 (!).

Quer ler mais? Clique aqui.

2 thoughts on “Expressões estrangeiras invadem São Paulo e Santa Catarina*

  1. Valews! Ficou bacana sua opinião na matéria, contribuiu muito.

    Se sentiu importante? Mas tu é importante, cara, por enquanto só as pessoas que importam sabem, mas logo todo o resto vai saber. ^^

    E MEOOO, agora que reli esse post achei uns erros horríveis, talvez eu tenha mesmo merecido a nota tosca, rsrs…

    Gostar

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