Uma Noite Após A Tempestade

A hora tão esperada é chegada, essa hora que vem acompanhada pelo cheiro de terra molhada e pelo contentamento despropositado, bem como pela sensação de plena finalidade, logo após uma tempestade. O sol ainda não brilha intensamente, assim como sua aorta não funciona como deveria… Inclusive, ela quase parou. Mas a hora tão esperada é chegada.


Lapsos de memória e lembranças entrecortadas a recordam de que fora arrebatada, voltou para lá e pode sentir o cheiro do poço uma vez mais. Alguns velhos amigos se levantaram, demônios trancados na gaveta e dos quais nunca pode se libertar… Pois é escrava de suas maldades, filha de seu sofrimento e fruto de seu ódio.
Seu coração é um túmulo e um buraco negro, no qual nada o pode preencher…


Mas aqui estamos novamente, em uma noite após a tempestade bíblica que durou cerca de 7 dias… Aqui está ela e seus demônios que a inspiram sobre tais palavras, que sussurram em seus ouvidos as mais loucas e maravilhosas histórias. Aqui estamos nós novamente. Tão ligados quanto outrora, juntos… outra vez.


Tenho uma visão estranha, fissuras se encontram na superfície de uma pele negra… Que fissuras são essas tão belas e dolorosas que se estendem sobre um corpo humano qualquer? A maior lacuna, no entanto, se encontra em algum lugar recôndito de sua alma, envolvido em um mistério que talvez jamais poderá ser decifrado. E esse é seu destino.
Mas tudo o que importa é a sensação que trás uma noite após a tempestade.


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“Fizemos isso de novo…”

O vento sopra suave lá fora, a terra dorme de um lado, enquanto se levanta de outro. Do lado de fora da janela, um céu limpo e estrelado com uma brisa que promete esperança (ou dor) mais uma vez… Do lado de dentro, suaves suspiros, uma canção que toca distante, uma alma que chora e mais cicatrizes, mais a sensação de uma noite após a tempestade…

Ao Meu Demônio

Hoje cedo, aurora, acordei com meu demônio sobre minhas costas…. Senti seu peso que me afogava como em mil mares, senti minha alma se reduzir ao pó.

Eu acordei, mas mesmo antes de abrir meus olhos, tu vieste a minha memória. Eu sabia que te encontraria, sabia que pisaria sobre a mesma terra em que tu pisas todos os teus dias e por isso senti medo. Meu semblante, que antes alvo e calmamente se despertava, hoje alterado se manifestou, pois já não havia brilho em minha face, a tão alva expressão matutina se desfez e meu coração se preencheu com o terror absoluto que tu alojaste em mim. Agora percebo…. Minha alma é uma cova, onde tu resolveste te enterrar, pesado e profundamente, duro, doloroso, sem pedir permissão, sem pedir licença…. Tu, diabo querido, apenas te alojaste na cova de meu já tão sofrido coração.

E por isso, de tão penetrado e a mim pertencente que tu és, pela aurora vieram à minha mente lembranças de um tempo distante, pois tu como sempre me controlas, me dominas, me diz sobre o que tenho ou o que não tenho que pensar…. Tu me obrigas a reviver aquele dia e eu me sinto como uma condenada. Eu nem sequer tive direito ao purgatório, nem sequer fui julgada e questionada… E deus, o Deus em que eu antes acreditava, simplesmente me lançou diretamente ao inferno, para viver a morte de minha eternidade contigo e, assim sendo, sou tua escrava e tu, querido e amado demônio, meu fiel bisultor. Mas o que estás vingando? O que terei eu feito para merecer tal castigo? Tanto te odeio, tanto te condeno, tanto te repudio… E ainda assim, somos ligados como carne e unha, nossas tentativas de separação são sempre dolorosas e por isso sei, que mesmo que ainda um dia tu resolvas me deixar, tuas impressões estarão sempre sobre mim.

Tu comes a carne de meu espírito tal como o verme que do sepulcro surge… Tu és a larva que me reduz a insignificância e por tua culpa percebo eu que não sou nada… Tu não sabes o mal que me causa, tu não sabes o quanto me fere… Tu não sabes que teus atos me enlouqueceram e roubaram minha paz e sanidade. Tu não sabes no que me transformaste… Me parece tão injusto que tu estejas aí, em teu canto, te divertindo com os teus afazeres, te alegrando com os teus amigos e te vestindo nesta tua pele de cordeiro falsificada, com todos te adorando, com todos te venerando, com todos te santificando… Enquanto aqui eu estou, dia após dia, sendo por ti castigada em minha mente, em meu espírito, em meu corpo… E tu ages como se nunca em tua vida me tivesses feito sofrer ao tentar roubar minha única chama de felicidade.

Quero que tu sofras. Quero que pagues por todo o mal que me causaste. Quero que tu sofras da pior maneira, enquanto te assisto sofrer.

É difícil e me sinto péssima. Sou um péssimo ser… Talvez eu simplesmente mereça o que me foi dado. Estou louca, completamente louca! Me sinto ainda pior porque sei o que a seguir virá… E, talvez tu saibas que uma nova esperança, um novo recomeço costuma vir com a aurora, mas eu tenho somente a promessa de que ainda estarás comigo, dia após dia, querido demônio.

Não Sou Um Homem Mau – Partes V e VI

Parte V

Sei que agora vai lhe parecer exagerado, mas tudo o que digo aqui é verdade e também é verdade que naquela noite, exatamente às onze e quarenta e cinco se iniciou uma linda e horrenda tempestade.

O sangue fervia em minhas veias enquanto os gritos de Ariel se propagavam pela casa. O cachorro latia alto e freneticamente. A casa estava escura e somente os raios iluminavam pausadamente alguns certos cantos. Eu queria ficar no escuro e longe de minha filha. Por isso tranquei a porta do quarto e me deitei, mas como o barulho era intenso demais para dormir, rolei diversas vezes pela cama, caminhei por todos os lados do quarto, fui ficando cada vez mais agitado. Eu tinha tanta raiva, tanto ódio daquela porcaria de criança, mas deveria me controlar, você sabe….

Em uma busca desesperada pelo autocontrole arranhei-me algumas vezes, puxei meus cabelos, gemi e também rosnei como um cão raivoso. Sentia cada vez mais, a cada grito de choro de minha filha, a raiva, a maldade, a perversidade e tudo o que há de mal neste mundo me possuir. Senti como se sete demônios habitassem em minha alma.

Já não podendo me controlar, abri a porta do quarto. O cachorro estava em minha frente, latindo, me agitando, me enlouquecendo…. Caminhei até o quarto de Ariel, vi-a deitada no berço contorcendo-se e senti prazer com aquilo. Me aproximei do berço e tudo o que aquela droga de menina sabia fazer era chorar, nunca poderia ser tão boa quanto sua mãe, tão perfeita como minha querida mulher. Não, não mesmo. Aquilo deveria acabar ali, pois era tudo culpa dela, tudo culpa daquela criança maldita…. Agarrei-a pelo pescoço e a estrangulei com uma sensação de quem está prestes a alcançar o ápice do prazer!

E então, de repente, paz. Silêncio. Ela finalmente havia se calado e o cachorro também.

Parte VI

Agora, fazem algumas horas que tudo isso aconteceu, mas estou aqui no chão, triste e arrependido, com Akuma ao meu lado, tranquilo, dormindo. Lágrimas escorrem pelo meu rosto enquanto estou escrevendo este ridículo relato antes que me descubram e me acusem injustamente, para que você saiba que…. Eu não sou um homem mau. Eu sou uma boa pessoa…. Mamãe dizia que Adam era uma boa pessoa. E, você sabe, Ariel estava gritando e… e… e… Ela nunca vai ser tão boa, tão, assim… Tão…. Tão perfeita quanto Angélica. A minha amada Angélica.

OBS: primeiro conto do meu livro “Linhas do Coração”

FIM

Não Sou Um Homem Mau – Parte IV

Parte IV

Pois bem, passaram-se dias após o enterro de minha mulher e algo em meu interior parecia mudar…. Ou eu deveria dizer que algo em mim parecia nascer? Seja como for, eu estava mudando, tudo estava mudando. Para começo de conversa, tudo parecia me irritar profundamente. A casa, os móveis, as pessoas, os objetos pessoais de minha esposa e até mesmo os meus. Tudo me incomodava e me parecia extremamente errado, feio, fora do lugar. Nada mais me agradava. Mas havia uma coisa, ou melhor, um ser que me irritava ainda mais profundamente do que qualquer pessoa ou objeto ao meu redor: minha filha, minha pequena Ariel. Contratei uma babá de período integral e uma empregada para cuidarem das tarefas da casa, do animal e da criança e, sendo assim, eu preferi me manter o mais afastado possível de Ariel, pois ela me irritava, tudo nela me irritava e movia em mim um certo ódio que me fazia fechar os punhos e desejar cometer algum crime. Mas eu estava bem, até que estava bem, com tanto que não precisasse ficar mais de dez minutos próximo de Ariel.

Certo dia, porém – e agora pensando, me parece que forças malignas trabalharam juntamente com o universo para fazer aquilo -, bem, como eu ia dizendo, houve algum tipo de imprevisto familiar com a família da babá e por isso tive de a dispensar às onze horas da noite. Nesse horário a empregada já havia terminado seu expediente e ido embora, sendo assim, voltaria somente no dia seguinte às seis horas da manhã. Eu então tive que permanecer sozinho na casa com o cãozinho e Ariel.

Você bem sabe que bebês choram e precisam de alguém por perto, então, por mais que eu tentasse deixar Ariel sozinha em seu quarto, longe de mim, ela não parava de ecoar seus gritos de choro por toda a casa, e, enquanto isso, uma raiva crescia em mim, uma certa necessidade de….

OBS: primeiro conto do meu livro “Linhas do Coração”

Não Sou Um Homem Mau – Parte III

Parte III

Senti como se o céu estivesse desabando sobre mim, como se uma tempestade se formasse em meio a uma praia antes paradisíaca, como se…. Como se eu simplesmente tivesse perdido o amor da minha vida.

Sentei-me no chão e me encostei no sofá atrás de mim com aquela figura em meus braços e chorei alto. Gritei, berrei como uma criança há dias sem comer chora implorando pelo leite e afago da mãe. Minha pequena filha ao meu lado, era realmente pequena demais para entender a gravidade dos fatos e por isso, permaneceu me observando por alguns minutos, curiosa pelo jeito em que naquele momento de dor eu me expressava. Depois, vendo que nada parecia mudar, voltou a brincar com um pequeno bonequinho de borracha que a frente dela estava. O cãozinho parecia entender, por isso deitou-se no tapete e me olhou com aquela expressão triste e significativa que somente os cães sabem fazer.  Já eu? Eu permaneci ali, por horas e horas, deixando o vazio – que somente a dor da perda causa – me preencher.

OBS: primeiro conto do meu livro “Linhas do Coração”

Não Sou Um Homem Mau – Parte II

Parte II

Enamorado e extasiado como estava, naquele momento, senti que nada no mundo poderia me roubar o prazer de admirá-la, pois aquela figura que eu tanto amava era como um anjo e tudo ao redor se perdia em névoa e desfoque enquanto meus olhos fitavam sua graciosa presença que preenchia minha alma. Senti que nada no mundo me poderia roubar aquele prazer.

Mas senti que algo não estava certo e me alertei quando minha querida mulher me olhou nos olhos com uma expressão tão dolorosa e penetrante que pensei poder contemplar o inferno através de suas retinas negras como a noite. Ela colocou a mão pequena e macia sobre o seio, emitiu alguns gemidos…. Eu, eu procurei socorrê-la, você sabe, não é? Eu…. Eu…. Eu…. Eu realmente tentei mas por alguns segundos minhas pernas travaram sobre o chão como se estivessem presas a correntes fortes e e eu eu não consegui me soltar mas então eu me soltei e depois e depois vi que perdi tempo e no fim das contas os segundos os poucos segundos você sabe em que não consegui me desprender do chão aqueles poucos segundos aqueles malditos segundos! Me perdoe, me perdoe, por favor, creio que me alterei. Mas como eu dizia, aqueles poucos segundos em que me mantive preso ao chão – talvez devido ao choque que percorria o meu corpo – acabaram me impedindo de ajudá-la a tempo e, então, ela faleceu.

OBS: primeiro conto do meu livro “Linhas do Coração”

Não Sou Um Homem Mau

Parte I

Ela estava linda. Gloriosamente linda. Suas curvas se destacavam por de baixo do vestido azul céu de cetim que perfeitamente se ajustava ao seu corpo, tão perfeitamente quanto uma mão feita para uma luva. Seus longos e negros cabelos cacheados pendiam de seus ombros para os pequenos e delicados seios como a água tranquila escorre pela janela após a tempestade. Via-se que ela era algo divinamente criado pelo Universo. Ela era divina. Sim, divina é a palavra correta. E eu a admirava de longe, encostado em uma das paredes da entrada do vasto corredor escuro que se prolongava atrás de mim. Ela, distraída e sorridente, com aquele sorriso perolado que se destacava em sua graça morena, que acalmava, porém inflamava meu coração, estava despreocupada com a vida e brincava com o pequeno vira-lata negro que tanto amava, sentada no vermelho tapete que se destacava em nossa sala amadeirada, junto a uma criança quase tão linda quanto ela. Uma criança. A sua criança. A nossa criança, quase tão linda e perfeita quanto ela. Mas nada ali, nem mesmo no universo e nem mesmo no próprio paraíso – e que Deus me perdoe! – poderia ser comparado à sua beleza. Nada no mundo era tão perfeito quanto ela e eu…. Eu não poderia ser mais divinamente agraciado. Eu era o homem mais feliz existente sobre a terra dos viventes.

OBS: primeiro conto do meu livro “Linhas do Coração”

O Maior Vilão Sou Eu

O Maior Vilão Sou Eu

 

– Eram três horas da madrugada quando, finalmente, resolvi me deitar. A festa, os vinhos, as pessoas, as cenas e as vozes ao meu redor geraram em mim um conflito torturante que me fez cometer um erro gravíssimo e depois refletir sobre uma certa coisa que vou compartilhar com vocês. Mas primeiro, comecemos pelo começo…Read More »

Ingrid Oliveira ganha prêmio de literatura

Blogueira do Fala Aeh! vence o 7º Concurso Literário de Cajamar – Categoria Conto

Créditos: Diretoria de Cultura de Cajamar

Participei da edição 2018 da competição de letras aqui na minha cidade, e fiquei muito feliz e orgulhoso de saber que a Indy Oliveira levou o 1º lugar com seu conto “Gaiolas”. Lembro que ela me pediu pra ler esse texto e dar uma opinião, e fiquei simplesmente maravilhado. Nesse ponto me falha a memória, mas com certeza eu devo ter feito mil elogios e recomendações de que ela fizesse muitas outras obras de arte.

Tenho muita sorte de acompanhar essa escritora que se tornou uma grande amiga. No passado participei de bancas de seleção das Olimpíadas de Português e de outro concurso chamado Cajamar em Verso e Prosa, e nas duas oportunidades indiquei textos da Indy. E tinha outro jeito? Não tem como negar o talento dessa moça com alma de artista. Gostei tanto do estilo dela que a chamei pra blogar comigo. E sabe de uma coisa? Foi um dos meus melhores recrutamentos desde 2010, quando comecei a admitir gente escrevendo por aqui (mais gente além de mim, claro).

E então, sem mais delongas, termino esse post com o texto da Indy, na íntegra. Meus parabéns à ganhadora, em nome do blog que faz essa literatura sem frescura, em nome do Rafah blogueiro e principalmente em nome do Rafah amigo. Abração pra todos! O/


Gaiolas

Ingrid Oliveira

No relógio, os ponteiros marcam as onze horas da noite. Gritos de
súplica são suprimidos pela boca fechada de Ana, que, prostrada no chão,
acaba de levar o segundo soco no rosto dado pelo marido. Um filete de sangue
escorre por entre seus lábios. Os olhos lacrimejantes, o coração partido.
Nenhum inferno nunca fora tão torturante quanto o seu. Com a mão levantada
e pronta para mais um golpe, o homem grita:

— Sei que está me traindo, mulher! Vejo em teus olhos! Pensa que não vejo?

A cena aqui presenciada pelo leitor, por muitas noites fora repetida. Já
não era novidade para Ana a obsessão, a suspeita e a agressividade sem
limites de Feliciano. Mas ela, como menina e esposa devota que era, por maior
que fosse a dor que lhe afligia, permanecia sempre calada.

Certo dia o pai chamou:

— Vem cá minha filha, sabe que tenho um ótimo pretendente para ti? Homem
bonito, gentil e sobretudo rico. Rico, minha filha. Muito rico!

Pensando que essa seria a solução para os problemas financeiros do
pai, Ana como filha submissa, aceitou de boa vontade o casamento. Fez-se o
noivado, fez-se o matrimônio.

Passado-se um ano de flores e corações no relacionamento, Feliciano
adquire uma obsessão, uma certa peculiaridade que Ana percebe talvez como
um “cuidado” exagerado do marido. “Deve ser excesso de amor”, pensa
consigo. Mas em seu íntimo, o homem sente uma necessidade, uma certa
necessidade sobre o controle. Aquela mulher não poderia nunca, jamais, ser de
outro homem. Comentava com os amigos:

— Mulher igual a minha, não tem!

Até que certo dia as coisas passam dos limites e nos encontramos em
uma das noites de inferno da menina. Ao que parece, bastou um simples
desvio do olhar de Ana em um passeio na rua para que o conflito se iniciasse.

Feliciano para, reflete, decide não dar o próximo golpe. O desejo de
controle sobre a mulher, passou.

— Vamos para a cama! — diz, numa estranha calma. Arrasta-a pelos braços e…

Feliciano possui brutalmente o corpo da pequena indefesa que, calando
seu choro, sente-se estremecer por de baixo do marido. A dor é intensa e por
alguns momentos fecha os olhos e clama pela morte. Mais alguns terríveis
instantes e, enfim, do outro lado da cama Ana chora em silêncio. “Mas Deus é
justo! Deus há de me vingar! “, pensa consigo.

Sente-se inconsolada. Sente-se sozinha. Sente-se presa. Sim, nada
poderia a definir melhor quanto o pequeno pássaro que criava dentro de uma
gaiola em sua casa. Ninguém a entenderia tão bem quanto o animal.

Agora, veja, se fora Deus ou se fora o mero acaso do destino, eu não
sei. O que sei é que, em uma das noites de inferno, quando Feliciano estava
prestes a dar o primeiro golpe na esposa, o homem sofre um estranho ataque
cardíaco. O caso foi fulminante. Morreu nos braços da menina, numa tentativa
desesperadora de chamar pela mãe.

No velório Ana encontra-se sentada em um canto, calada, pensando,
sem esboçar uma reação, presenciando a cena à sua frente. A sogra chora,
grita, esperneia:

— Meu filhinho, meu filhinho tão amado. Jesus, por que não me levou no lugar
dele?

Os familiares tentam acalmar a velha, arrastando-a para longe do
caixão, até que uma estranha presença é notada. De preto, linda como
ninguém, chega uma mulher, vai em direção ao caixão e para o espanto de
todos, beija o morto nos lábios, se derrama em prantos e rasga o véu negro
que estava sobre sua cabeça.

Enquanto todos os presentes estão atônitos, Ana observa a cena calada
e quase que estranhamente se deleita com o sofrimento da outra. Por um
instante percebe o que sente: sente-se livre, deliciosamente livre… E, em
algum lugar de sua casa, um pequeno pássaro consegue libertar-se de sua
gaiola que caiu no chão.

Pavê de Bis

Hoje eu trilhei pela enésima vez o mesmo caminho. E ainda assim, me pareceu algo totalmente novo. Sim, hoje mesmo eu cruzei o portão de metal, perto do qual eu lia Machado de Assis pra passar o tempo até dar a hora de ir pra aula.

E nesses tempos, eu nem imaginava que iria sentir o sabor do Pavê de Bis.

Cruzei os portões uma vez mais. Caminhei até a conhecida escadaria de todos os dias. Cada degrau me colocava mais perto do que tem me assombrado todos esses anos… E eu sei que não estou mais naqueles dias, mas algo trouxe tudo de volta. Pra perto.

Um aperto no peito fazia questão de me lembrar que aquele lugar foi o palco de tudo aquilo. Saber que diariamente eu sou obrigado a revisitar esse lugar evoca esse fantasma que tem me perseguido e vai me acompanhar até o túmulo.

Cruzei a catraca, na boca um gosto marcante daquele Pavê de Bis…

E o saguão já não parecia infinitamente gigantesco, como antes. A alegria de um mundo a ser descoberto tomava conta de mim naqueles dias… E agora, os caminhos já foram percorridos. Já sei que feras encontrarei por aqui, e por isso mesmo, tudo tornou-se monótono. Até ficar frio, e por fim, solitário.

Já não sinto mais o sabor do Pavê de Bis.

Esse saguão, outrora abarrotado de gente, estava vazio. Mesmo assim, foi difícil abrir caminho por entre os espectros. E todo o resto ficou desfocado quando, ao passar pela praça de alimentação, vislumbrei um garoto e uma garota, sentados a uma das mesas. O garoto, de repente, segurou as mãos da garota, e no mesmo instante senti em minhas mãos o toque suave e delicado de mãos femininas e familiares. Familiares demais…

Tentei piscar os olhos, e quando os abri novamente, a imagem do casal não se desvaneceu como num sonho. Aprendi que isso é consequência da minha Maldição. Desviei o olhar e segui para a escada que leva ao subsolo e aos laboratórios de informática.

E tornou-se amargo o gosto do Pavê de Bis.

E eu estava subindo. Escada rolante, que tantas vezes subi com a mesma companhia do lado. E no entanto, uma confusão caótica de escolhas, minhas e dos outros, se encarregou de arquitetar tudo o que era necessário para fazer com que naquele momento eu estivesse sozinho. E assim mesmo, saltando os degraus, cheguei ao andar em que eu devia estar.

Mais alguns andares, e o gosto do Pavê de Bis estaria mais forte do que nunca…

Uma vez entregue aquele trabalho que levei meses pra terminar, eu tinha resolvido apenas uma de minhas pendências com aquele lugar. Faltava enfrentar o que tem me perseguido em todos os lugares, através das horas, de dia, de noite, em meus sonhos e naquele lugar. O Fantasma. Eu tinha de enfrentar aquele Fantasma.

Ele já não estava mais do meu lado. Estava naquele andar, o último do prédio. E ele estava me chamando. Desde que entrei no prédio que é o memorial da minha desgraça. Desde que um espírito deixou de ser a vida que habitava um corpo, para passar a me assombrar.

Enfim havia chegado a hora de provar uma última colherada do Pavê de Bis.

Outra vez a escada rolante. Subi até determinado andar e fui em direção das escadas convencionais. Não havia escadas rolantes que subissem até o último andar. De certa forma, achei que fosse melhor assim. Um a um, fui vencendo os lances de escada, reparando cuidadosamente nas placas que indicavam os andares. Eu costumava chegar àquele andar de elevador. Os botões 1 e 2, pressionados exatamente nessa ordem, me faziam subir às alturas, literalmente e metaforicamente falando.

Meu coração costumava disparar quando o aviso sonoro do elevador indicava que eu tinha chegado ao 12º andar. Havia alguém me esperando em determinada sala. Meu corpo flamejava de tantos sentimentos queimando. E agora, no entanto, percorrendo o caminho a pé, cheguei ao topo do prédio. E eu envolto por uma frieza glacial.

Senti minha xícara de Pavê de Bis ser preparada em uma sala bem perto…

Pouca gente caminhava naquele andar. Aqui e ali, pequenas rodinhas que em pouco tempo iam se dispersando. Ainda assim, caminhei com cuidado, como se eu estivesse apenas de passagem, e não indo ao encontro de um espectro poderoso.

E assim, como quem não quer nada, deixei os passos irem me levando displicentemente. O hall dos elevadores também parecia menor. Tantas vezes estive ali chegando ou partindo, e agora eu estava ali para lutar. Um vórtice cinzento de fantasmas se lançou em minha direção, me provocando alucinações que me fizeram perder a noção de realidade.

Mas eu não desmaiei. Não sucumbi. Não poderia cair antes de enfrentar a mortal colher de Pavê de Bis…

Depois de rodear meu alvo sorrateiramente, tal qual uma fera espreitando uma presa indefesa, percebi que o hall dos elevadores estava vazio. Mudei o caminho dos passos sutilmente, e então entrei naquela sala. No topo do prédio, projetado e construído para ficar num ponto central, pra quem via de fora. E ao contrário das outras vezes, em que algum sentimento nefasto se materializava numa lâmina com a capacidade de desfragmentar os átomos de qualquer coisa existente no universo, dessa vez eu estava frio. Gélido. Sem emoção.

Eu não sabia o que sentir. Era um vácuo, um vazio. Mas não o tipo de vazio que faz você se sentir mal. É o tipo de vazio que faz você se perguntar: “Cara, o que é que eu tô fazendo aqui?”. É se fazer essa pergunta num quarto completamente vazio, ver que não há motivo pra ficar ali, e simplesmente sair desse aposento e trancar a porta atrás de si.

Sala vazia exceto por uma única presença: o Espectro. E as lembranças me atacaram e me arrastaram… Até os tempos do Pavê de Bis…

Fui transportado para um macio sofá-cama. Diante de mim, uma mesinha de centro e a TV. Um filme rolando. E do lado esquerdo do meu campo de visão, surgiu a imagem de uma presença feminina. A que tive a desgraça de um dia conhecer. Nas mãos, duas taças de vidro, contendo um certo doce. Confesso que não me lembro qual era a receita, embora ela tivesse me sido segredada em linhas gerais.

A única coisa que consegui absorver da explicação da receita, me utilizando de ridículos conhecimentos culinários, foi que aquela receita continha Bis. E que aquilo era um pavê. Pavê com bis. Pavê de bis. Um doce que dali em diante cativaria meu paladar pra sempre. E que acabou se tornando um símbolo dessa época doce. Que depois se tornou agridoce, para então finalmente enjoar. E amargar. E a presença feminina se aproximava de mim, no sofá-cama, para me estender uma taça…

Uma taça de Pavê de Bis…

Foi nesse momento que essa visão se desvaneceu no ar, se desmaterializando em partículas fantasmagóricas de vapor até finalmente desaparecer. E a aparição continuava ali, no seu manto incorpóreo, mas mantendo certos traços que me permitiam reconhecer ali a artífice do amaldiçoado pavê… E a sala era realmente pequena…

E eu achava que o que tinha acontecido ali era realmente algo grandioso, mas não mais. Era tão somente o momento em que acorrentei a mim um fantasma que não teve piedade de mim nos últimos anos. As vezes em que desaparecia era só para me fazer cair na tentação de achar que finalmente estava livre. Mas acho que acabei me acostumando com essa presença.

Que me persegue, assim como o sabor dos tempos do Pavê de Bis…

Protegido por uma armadura de cristais de gelo, habilidade que recebi de uma certa Ruiva, certa vez, em certo lugar, caminhei até o lado oposto da sala. Olhei pela vidraça da janela, que tinha o mesmo comprimento do recinto. Observei o céu, os edifícios e todas as outras coisas lá fora. Por um segundo, quase me esqueci do Espectro sentado a uma das carteiras. E assim como fiz anos atrás, sentei numa carteira bem ao lado.

E encarei novamente aquele olhar, que outrora tinha tanta vida, e agora tinha uma aparência vítrea. Oca. Outra vez a ausência de qualquer emoção. Me deixei ficar ali por alguns segundos, e me recordei do quanto uma pessoa pode ser iludida, usando a mim mesmo, há anos atrás, como o exemplo e o argumento. Cansado de tanta ausência de tudo, me levantei… E me afastei alguns passos.

Foi aí que o espectro desapareceu e subitamente se materializou na minha frente… Uma das mãos pálidas tentava forçar a taça de Pavê de Bis em minha boca…

Bastou um olhar determinado. Um pensamento resoluto e uma palavra definitiva: “NÃO!”. A taça voou das mãos da Aparição, ao mesmo tempo que aquela entidade deixou de estar ali na minha frente. E foi como se nunca tivesse existido. Não senti vontade de permanecer mais naquele lugar. Ao contrário. Algo estava me impelindo a deixar o lugar. Não havia mais magia alguma ali, apenas destroços.

Restos. Trapos, lixo. Isso percebendo, cruzei a porta. E ao sair para o hall de elevadores, fiz questão de descer todos os andares de escada. Eu precisava deixar muito bem gravadas na mente todas essas impressões. Reminiscências dessa batalha desigual. E devo dizer, inútil. Em pouco tempo eu estava de volta ao saguão de entrada do prédio, passando uma vez mais pelos portões de metal. E o gosto doce do doce estava perdendo força no meu paladar.

Uma última coisa a dizer ao adorável Espectro que tem me assombrado todos esses anos…

A única coisa realmente sincera, verdadeira e real que você algum dia me deu foi aquela taça de Pavê de Bis…

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Nada pra Mim

Havia certo parque. Em certa cidade. Certo lugar em um tempo incerto. As paredes, o calçamento de tijolos de pedra, os próprios portões… Tudo ali estivera esperando pacientemente para ser palco de algo que viria a acontecer.

Enfim aquele lugar desempenharia seu papel fazendo exatamente o que foi criado para fazer. Enfim a existência daquele lugar seria justificada. Enfim havia chegado o dia.

Duas figuras cruzaram o portão do parque. Vinham conversando descontraidamente. Sem pressa. Uma das figuras trazia em uma das mãos um celular, que usava para tocar trechos de determinadas músicas enquanto cantava por cima delas. Figuras incomuns haviam cruzado o portão do parque, que havia sido construído para receber eles neste exato dia.

A meio metro de altura vinha planando um garoto com longas asas em um tom branco perolado. Suas costas aladas carregavam um violão dentro de uma capa. Este ser alado avançava em direção ao interior do parque ao lado de uma animada e meiga garota.

Seus cabelos ruivos, não muito longos, cediam ao sopro de um vento agradável. Em suas costas, também trazia um violão abrigado em uma capa. No alto de sua cabeça, distinguiam-se claramente duas orelhas felinas. Orelhas de gata, que de quando em quando ela acabava tocando enquanto passava a mão pelos cabelos distraidamente. Sem perceber.

Ela caminhava cantando, dizendo bobagens displicentemente, e o garoto, planando sem tocar os pés no chão, ouvia com atenção as canções e ideias dessa ruiva felina. E sorria, sorria com simplicidade de quando em quando. Gargalhava em outras vezes. Ela gostava de falar, e ele gostava de ouvir o som de sua voz. E isto bastava por ora aos dois.

Ainda levaram alguns minutos para achar um lugar que lhes agradasse. Decidiram por fim se sentar na borda de um caminho que se abria por entre a grama de um trecho inclinado. Nesse momento o ser alado fez um movimento com suas asas, e seus pés suavemente tocaram o solo.

O contato dos pés com o solo evocou a Racionalidade que habitava nesse ser. Já a garota felina o tempo todo estivera com os pés no chão, durante todo o trajeto. Ela julgava que tudo ficaria mais fácil se ela não se permitisse ter asas.

Os dois então sacaram seus violões de suas capas. A princípio pareceu o encontro de dois seres poderosos que se enfrentariam para decidir o futuro de duas cidades, dois países, dois reinos, dois planos, dois rumos. Duas vidas. Mas as cordas soaram. Os acordes de ambos os instrumentos sorriram uns para os outros, felizes por poderem partilhar da aura do momento. E as vozes…

As vozes se combinaram, se encontraram, se entrelaçaram, e por vezes se tornavam uma só. Uma mesma voz. Numa mesma canção. Canção que produziu uma aura de luz. De paz. Tudo ao redor se tornou translúcido.

O céu, que parecia ter perdido a cor, estava na verdade tingido não de branco, mas de pureza. De energias positivas. Marcado como sendo um território celestial. As raras cores suaves que se via vinham do Sol, que com delicadeza enviava os últimos raios de luz do dia para agraciar aquele encontro de acordes, cordas, poesia, música e almas.

Uma alma celestial, e a outra felina. Um encontro de duas forças opostas, um encontro entre Céu e Terra, a prova suprema de que há enviados alados para nos guardar, mesmo que não percebamos.

A ruiva felina habilmente executava riffs e solos ao pôr do sol. E o ente alado a acompanhava com seus acordes dissonantes e sua voz melódica, tão habituada a forjar a dor. Enquanto que a voz da garota de orelhas de gato era suavemente rouca, rebelde, mas que alcançava agudos sublimes e deixava transparecer a doçura que encharca seu coração.

Ao final de certa canção, cientes desse encontro de almas pela melodia e pela poesia, o ente alado descuidadamente vasculhou e encontrou em seu caderno certa canção. Mentalizou os acordes, as palavras e entoou os versos. Maldito anjo. Havia acabado de quebrar o encanto do ritual.

Eis que a garota felina, ao fim da canção, sacou da Pena. Usou o poder supremo da Palavra. Poder esse que o anjo conhecia, e usava por vezes como a lâmina ceifadora do Juízo Final, que dá a cada um o que lhe é devido. Ou como bálsamo, como luz para esclarecer mentes.

Mas nesse momento a garota de orelhas de gato sacou da Pena e executou com maestria a técnica proibida. Passada apenas aos merecedores, que ainda assim são juízes para decidir como e quando usar esse poder. Pois foi este mesmo poder que a Pena da felina evocou. Riscos que eram golpes múltiplos de simetria perfeita entre si. Golpes da Palavra.

Golpes que atingiram o anjo de modo furtivo e avassalador. Tantas palavras tinham-no atingido. Recebeu tantos golpes, e a cada golpe mais e mais de seu arsenal se desvanecia. Os golpes da felina drenaram as palavras que o anjo poderia evocar ali.

E tudo que o ente alado pôde fazer foi encarar com valentia os golpes, sem fugir, sem voar para longe. Afinal, ele realmente precisava enfrentar aquelas palavras. E desarmado.

Ele bem que tentou sacar sua Pena e conjurar muralhas de argumentos, palavras cortantes, verbo mortal. Mas por algum motivo a Pena do anjo não podia ser usada contra a felina. O anjo nada pôde fazer para se defender.

Cessada a rajada de golpes, minutos depois os dois estavam novamente lado a lado. Deixando aquele lugar criado para ser o campo de batalha entre um anjo e uma humana felina de cabelos avermelhados.

Lugar criado para ser o marco do dia em que foi negado ao anjo usar o seu poder em toda a sua extensão. O dia em que a Pena do anjo se negou a obedecê-lo. Talvez porque não fosse uma luta, talvez porque a verdade não poupa nem mesmo os anjos.

E o anjo que pela primeira vez foi deixado por sua Pena, sua lâmina, sua arma, não estava mais planando. Caminhava para fora do parque com dificuldade. Mancava. Mas a garota felina vinha ao seu lado, ajudando o anjo a ficar de pé e caminhar.

E ela mais uma vez sacou sua Pena, mas dessa vez não evocou golpes, evocou cura. Desse modo ela foi curando os ferimentos abertos na carne do anjo. Mas eram ferimentos superficiais. Causados pelas técnicas proibidas do Verbo da Verdade e da Franqueza.

Eram ferimentos que precisavam ser infligidos ao anjo. E o anjo sabia disso. Talvez por isso sua Pena não tenha vindo em seu auxílio. Porque nunca houve inimigo, nunca houve campo de batalha, nem guerra, nem armas. Tudo o que havia ali eram dois seres oferecendo um ao outro o Verbo da Amizade.

Os dois entendiam isso. E é justamente por isso que, embora ferido, o anjo sorriu. E é justamente por isso que a garota felina descobriu com espanto que ela havia sofrido os mesmos ferimentos que havia infligido ao anjo.

E os passos dos dois, um apoiando o outro, rumaram para fora do parque.

E enfim eles entenderam que não são iguais com algumas diferenças. Eles são diferentes. Mas com algumas semelhanças. Ele é o anjo. Ele é o Céu. Ela é a felina. Ela é a Terra. Eles são opostos. Mas por isso mesmo nomearam a aura dourada que os envolve com o Verbo da Afeição.

Estando nomeadas todas as coisas, o anjo enfim abriu novamente suas asas branco-peroladas. Tomou a felina pelas mãos. Voaram dali, se afastando do parque. Do chão. E então o anjo cativou a felina. E a felina cativou o anjo. Tornando-se eternamente responsáveis um pelo outro.

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Solitude sob um céu cinzento

Verde. É a cor de meu guarda-chuva. Azul, a cor da minha jaqueta. E cinza, a cor da porção de céu acima da minha cabeça. Céu cheio de nuvens mal-encaradas se desfazendo em gotas de chuva, lá de cima. Gotas essas que que morriam em respingos na calçada sob meus pés, encharcavam toda a rua e deixavam o ar úmido, frio, e o clima solitário e lúgubre de desolação.  Uma rápida passada de olhos ao redor, e não via nada, nem ninguém. E, por um lapso de tempo que não posso precisar ao certo, me deixei ficar ali, em frente de minha casa, as pernas quase adquirindo vida própria e contrariando a cabeça, onde moram meu juízo e minha razão. Juízo esse que ultimamente havia sofrido sérias avarias, e começava a dar lugar a pequenos acessos de loucura, mas uma certa dose de insanidade que de certa forma me fazia alguém melhor. No embate de cabeça contra pernas, nenhum  levou a melhor, pois simplesmente fiquei. Toda a energia de que eu dispunha já havia sido gasta em me levantar do sofá no qual estive despejado minutos antes. Isso porque esse não era um dia convidativo para sair de casa. Pude fazer essa conclusão por mim mesmo ao, pela manhã, olhar o tempo pela janela do quarto que fica logo após a garagem. Conclusão essa que não veio ao mundo antes que eu perguntasse a minha mãe se a viagem era realmente necessária. E, sendo esse o último dia, não tive mesmo escapatória, e agora estava ali, sem saber se ficava, regressava ou partia. Desejei imensamente estar com ela, assistindo qualquer filme que nos valesse a desculpa de estarmos juntos, compartilhando o mesmo cobertor, o mesmo ar, o mesmo calor, e com as mãos entrelaçadas num encaixe perfeito, fadado a acontecer… Mas ela está longe daqui,talvez se deixando levar por imaginações da mesma natureza. E eu já não tinha mais tempo para me manter imerso em meus devaneios. Reunindo forças de um estoque que até hoje não sei onde fica, saquei o objeto que me impediria de me molhar – de me molhar muito, na verdade.  Mal-humorado, apertei um botão na base da haste de metal, e a lona abriu-se através do movimento da armação. Uma otima proteção, que no entanto não me livrava de molhar a barra da calça jeans. Enfim despertei de uma espécie de transe no qual me encontrava e segui pelo caminho.

Passos contidos. Passos preguiçosos. Passos contrariados… Mas, ainda assim, que serviam ao menos para me levar até onde eu iria. Estou no mei o de uma encruzilhada, qual dos caminhos? Apenas dois me serviam, só que no da direita havia lama. Restava apenas descer a rua em linha reta. Debaixo de meu guarda-chuva, podia ver poucas pessoas ao redor, somente as pessoas que não tinham outra escolha a não ser sair de suas casas, por qualquer razão que fosse. Enquanto subia por um caminho íngreme de asfalto, onde ainda estavam os vestígios do patriotismo brasileiro que havia caído por terra com a eliminação do Brasil na Copa, os pensamentos em minha mente se revolviam com fúria, ricocheteando dentro da minha cabeça, de um lado para o outro, chocando-se uns nos outros e gritando em coro que eles eram muitos para permanecerem todos ali, no mesmo lugar. Sim, eu precisava me esvaziar disso. Precisava conversar. Ao meu redor, pessoas que eu conhecia apenas de vista. Não só moradores daquele bairro, como personagens de toda e qualquer história que ali se desenrolava. As poucas pessoas com as quais eu me identificara e tinha feito amizade estavam ocupadas demais em suas próprias vidas, ou haviam se mudado, ou eram falsos amigos que não eram dignos da minha dedicação sincera. E por mais que eu tivesse a moral de ligar pra alguém, pedindo para me acompanhar até Jordanésia, quem de fato aceitaria? Realmente, qualquer pessoa em seu juízo perfeito arranjaria uma desculpa qualquer, e a primeira delas era tão somente o mau tempo. A chuva, o frio, um esfarrapado “não gosto de andar de ônibus” ou “acho um saco ir no banco”. Qualquer uma dessas coisas. Mas dois pensamentos se chocaram, e dessa colisão surgiu uma explosão luminosa que me permitiu perceber que um amigo de verdade me acompanharia onde quer que eu fosse, mesmo debaixo de tempestade ou sol a pino, num dia de verão em toda a sua glória. E naquele momento eu não tinha ninguém que pudesse me fazer companhia. Unindo a ideia ao fato, cheguei à triste conclusão de que eu não tinha amigos.

Ao menos ela me acompanharia, e com a maior boa vontade desse mundo, pensei comigo. Mas infelizmente ela morava relativamente longe de mim – ou eu dela, dá no mesmo – pra estar ao meu lado nesse dia estranho, escuro e sombrio, mesmo com o sol brilhando, uma vez que as nuvens espessas bloqueavam boa parte da claridade. Enfim estava chegando ao topo do aclive, para então ter que descer a a velha e infame Servidão, uma rua longa e inclinada, o suficiente pra fazer você implorar por uma escada rolante, elevador, bondinho ou mesmo a carona de uma pessoa qualquer que por ali passe. Na esquina a frente, duas pessoas passando um pouco apressadas e devidamente agasalhadas. Um deles me acena de longe. Como não o reconheci, deixei de retribuir ao gesto. Só então, quando ele já desaparecera do meu campo de visão, me lembrei que era um tio postiço. Quase que instantaneamente me veio à mente a imagem do rosto de minha prima, que vez ou outra nos fazia visitas, a certa época quase periódicas, mas que cessaram de repente. E o motivo pouco me importava, pra falar a verdade. Lamentei não ter respondido àquele gesto tão simpático por não ter  visto com clareza o emissor do mesmo. Mas minha visão estava embaçada, talvez pelo fato de tudo aquilo que se debatia em minha cabeça ter se transformado em uma nuvem, que então passou a me envolver. E confesso que estava mesmo um pouco aéreo. Embora minha mente vagasse ao longe, e eu não estivesse realmente ali de verdade, minhas pernas continuavam com seu ritmo acelerado. Minha jaqueta sendo aberta sendo soprada pelo vento frio, a mão esquerda no bolso, a direita segurando minha generosa proteção contra a água que caía. Poucas pessoas ao redor, o caminho ficando para trás a medida que meus passos avançavam. E, ao final daquela estonteante rua, fui atingido por um relâmpago de criatividade. Com ele, uma frase para postar no Twitter: “Quando tiver que fazer com frequência o que não quer, na hora em que menos quer, meus parabéns: você já é um adulto.” Anotei a ideia no bloquinho de anotações que eu esqueci de comprar e ainda não tenho, dobrei a esquina e cruzei a avenida após dar alguns passos até o sinal. Trânsito fluindo bem, pessoas que nunca vi mais gordas indo vindo em direções contraditórias. Não que o meu bairro fosse movimentado, mas pelo menos era mais badalado que o resto da cidade. E olha que mesmo aqui não rola nada de interessante ou extraordinário. Opções de lazer são quase inexistentes, e não raro o pessoal daqui visita cidades vizinhas pra se divertir de modo mais decente. Por esse motivo, as praças eram muito disputadas, e o ponto de encontro dos adolescentes era o ginásio de esportes. Era o lugar em que a garotada se reunia pra matar o tempo, onde ficava matando aula, simplesmente ficava ou preenchia o tempo ocioso treinando algum esporte ou arte marcial. E pessoalmente, eu não via graça em nada disso, nem utilizei esse espaço pra qualquer uma dessas coisas. Mas agora eu já estava vendo esse lugar pela janela do ônibus, e me despedindo do Polvilho, por ora. Sinto na prática a lei da inércia fazendo com que eu seja levemente pressionado contra o banco atrás de minhas costas, devido ao ônibus que novamente era posto em movimento. Sem nenhum celular de última geração com acesso à internet ou MSN pra me fazer passar o tempo mais depresa, deixei-me entreter pela minha alucinada imaginação que nos últimos dias estava incendiada, produzindo a todo momento situações e visões que eu confidenciava somente a ela. A maior interessada nisso tudo.  E assim permaneci, ocupado com meu próprio mundo como passatempo, dentro daquele ônibus, enquanto ao redor não acontecia nada digno de ser mencionado.

Sinal dado, porta aberta e eu na praça da igreja, já em Jordanésia. Engraçado como tantas igrejas estão acompanhadas de praças, e confesso que lugares assim me remetiam ao passado. Me faziam lembrar do meu primeiro encontro, o primeiro que tive na vida, e também dos seguintes que se sucederam, e de como nenhum deles tinha realmente valido a pena. E minha útima lembrança de praças assim havia sido tão negativa… Tão negativa que não vale a pena mencionar. Ao menos, já não me causava dor. Essa ferida aberta já tinha sido cicatrizada pelo Tempo, como consequência de seu velho ofício de fazer passar as horas, os dias, as eras. Mas também pela chegada dela em minha vida. Ela, que me ouviu, me abriu os olhos, me consolou, me aconselhou e que por fim passou a me enxergar de modo diferente. A mesma coisa para mim. E os beijos no rosto passaram a escorregar, de um modo que não era mais inocente, e sim repleto de intenções, repleto de finalidades e desejos. E os abraços passaram a ser mais apertados, mais demorados, mais intensos… As mãos que se encontravam ao acaso de um jeito desajeitado, causando automaticamente os habituais pedidos de desculpas, puderam enfim se tocar sem qualquer tipo de culpa, sem qualquer coisa que impedisse. Porque enfim ela estava livre. Porque enfim eu havia me libertado. E porque a amizade havia se transfigurado em algo muito maior, algo grandioso, algo de explendor indescritível. Nossas declarações, nossas palavras imbuídas de poesia e sentimento, que agora eram juras de amor arrebatadoras. Se ao menos tivesse ela comigo ali, naquele momento, essa impressão ruim quanto à praças de igreja se desfaria como se o próprio Deus, num movimento de mão sublime e celestial, sem proferir palavra, pudesse dissipar aquelas nuvens negras que pairavam naquele dia, fazendo então aquela chuva cessar de vez e dar lugar a uma tarde radiante, na qual explodia a luz nostálgica que sempre se fazia presente em nossos momentos a sós…

Passando por uma banca de jornal e um desses trailers de cachorro-quente, contornei a praça, decidido a não fazer isso durar mais do que o necessário. Uma padaria aberta, restaurantes, barzinhos com gente conversando. Num deles, vi um cara sentado à mesa, sozinho, bem próximo da calçada. Um ar perdido no horizonte, fisionomia tensa e impaciente, típica de quem está ansioso, esperando alguém. Digo “cara”, mas ele devia ter a mesma idade que eu, então era ou um adulto jovem ou devia estar em fins de adolescência. Tinha tudo pra ser um encontro, falei pra mim mesmo em silêncio. É realmente impressionante o fato de várias vidas, várias histórias a serem contadas e descobertas andam assim, displicentemente pelas ruas, e tanta gente não se permite nem ao menos pensar nisso, pois estão ocupados demais com seus próprios problemas. Não sei ainda qual é a utilidade disso, mas pelo menos serve para que percebamos que nosso umbigo não é o centro do universo.  Como certa vez ouvi Jaime Celiberto dizer, “existem umbigos muito maiores (…)”.  Existências que, dentro dessa mentalidade atual do “ter” se sobrepondo ao “ser”, são muito mais valiosas, histórias fantásticas a mera distância de um bate papo descontraído. E além do mais, me identificava com o garoto pensativo, uma vez que já passei pelo mesmo que ele. É, diversas garotas acham que a velha tradição de que a noiva se atrasar é de praxe se estende até mesmo aos primeiros vestígios de relacionamento, passageiro ou não, por diversão ou com alguma seriedade. No casamento a noiva precisa de toda uma produção relativa ao vestido, cabelo, penteado, maquiagem e por aí vai. Preparar uma noiva para o altar não é tarefa fácil e demanda muito tempo, e ao menos nessa situação um atraso é justificável. Mas, em um encontro, não tem necessidade de uma preparação tão complicada quanto à do dia do matrimônio. Com o mínimo de bom senso, pelo menos a ida ao salão de beleza poderia ocorrer com um pouco de antecedência, assim como a escolha da roupa, ao menos para poder adiantar. Por isso que a desculpa “estava me arrumando pra ficar gatinha pra você e tu ainda reclama?” não cola. Claro que, se a guria depender da boa vontade do trânsito pra chegar ao lugar, não tem mesmo como reclamar. Mas o fato é que existem meninas que se veem numa posição superior num encontro, achando que o cara deve suar a camisa pra conquistá-la enquanto ela fica parada, de braços cruzados, pra bancar a difícil e não dar a impressão de ser fácil. Daí se sentem no direito de se atrasar sem qualquer tipo de consideração com quem está esperando. Mas ainda bem que não são todas que são assim. Não mesmo. Mas em seguida limpei a mente de tais reflexões, o fórum no qual se localizava a agência bancária em que eu deveria passar já estava logo a frente.

Enfim, cruzei novamente a porta de entrada, que para mim era de saída nesse momento. Depósito bancário feito, os pés sentindo o caminho de volta e a satisfação de dever cumprido, enfim. Distraído com sempre, rumava em direção à praça de onde eu viera e o ponto de ônibus, mas me lembrei que havia outro bem mais perto, bastando apenas eu descer a rua e atravessar a restante. Nos bancos, algumas pessoas sentadas com ar de tédio e cara de paisagem. Três colegas de trabalho de uma mesma empresa, cuja portaria se encontrava bem próximo dali passaram por mim, que estava de pé, esperando, com um ar não menos entediado do que o do pessoal sentado. Novamente  minha jaqueta,  que lembrava um daqueles uniformes de esportista colegial americano, tremulava ao sabor da vontade do vento. As duas mãos no bolso da calça jeans – quase que minha marca registrada – e o olhar ansioso e fixo na curva do caminho, os ouvidos atentos ao mínimo ruído de um motor a diesel. Meti uma das mãos no bolso, separei a grana da passagem. Enfim o ônibus chega. Me enfiei nele e segui de volta o caminho, usando a mesma forma de entretenimento da viagem de ida.

Sinal dado, era tempo de tomar o caminho da roça. Incrível, mas esse ônibus era daqueles que pra solicitar uma parada tinha que puxar uma cordinha. Clifti-clóftistiu, e a porta se abriu. E quem dera se todas as demais portas da vida se abrissem pra gente desse jeito, bastando apenas pedir. Pulei então para fora. Mas não se diz “pular do ônibus” e sim “saltar”, quem pula é canguru, como já disse alguém. Mas as palavras “pular” e “saltar” não são sinônimos, no final da conta não dá o mesmo resultado, não serve tudo pra mesma coisa? Teoricamente, sim. Mas não na prática, e na real, quem disse isso na verdade queria apenas se sentir superior em detrimento das pessoas ao redor. Arrogância pura e simples. E pra quê, se todo mundo nasceu do mesmo jeito, veio ao mundo pelado, careca e sem dente, sem nada nos bolsos, e vai sair dessa vasta bolinha azul igualmente sem nada? Correção, dessa vida nós não saímos de mãos vazias, não.  Acredito que tenhamos uma espécie de ficha, e um fiscal que nos vigia 24 horas por dia. Tudo o que fazemos de bom ou de mau é contabilizado, anotado, tabulado, armazenado, avaliado… Nunca pense que ninguém vê o que você está fazendo neste exato segundo.  Existe um olho que tudo vê, há uma inteligência onisciente e onipresente, que provém de um ser onipotente, para julgar a cada um conforme seus crimes, retribuir individualmente pelos feitos concretizados, uma justiça que, como diz o ditado, “tarda mais não falha”. É a única justiça realmente eficiente e imparcial, porque a dos homens está contaminada, repleta de preconceitos, favorecimentos, discriminação, e ainda mais nesse país, saiba que igualdade é apenas uma palavra bonita que simboliza algo inexistente. Se é que não já sabe, ou fecha os olhos para isso, ou concorda e compactua, enfim…

Eu já havia desembarcado, e caminhava a passos apressados, me afastando do “terminal” de ônibus, me aproximando cada vez mais de onde eu não queria ter saído. Os pensamentos ainda lutavam no espaço reservado a eles, disputando entre si quem receberia a minha atenção e o privilégio de minhas suposições e especulações. E a única coisa que de fato me importava naquele momento é que finalmente eu estava voltando pra casa. Admito que era apenas uma tarefa simples, mas as horas pareciam realmente intermináveis, e  eram, mas não é só porque eu não havia levado o celular e tampouco dispunha de um relógio de pulso, ou qualquer meio para saber a hora, a não ser perguntando a um  estranho qualquer na rua, ao acaso. Eu me sentia só. Era como se o mundo inteiro, de repente, passasse a ser um lugar inóspito e hostil, onde eu não conhecia ninguém, não poderia contar com ninguém que não fosse eu mesmo. Tem vezes que olhamos em volta e não enxergamos nada. Outra vezes, a mão que erguemos, num sinal claro de súplica por ajuda, ao estarmos caídos no chão, é sumariamente pisoteada. É aí que precisamos reunir forças buscadas em um reservatório invisível que todos nós temos e trazemos conosco, ora transbordando, ora seco, e utilizar essas reservas pra nos levantarmos sem auxílio. Também há momentos e que não há outra alternativa a não ser você se agarrar em si. É como um náufrago no oceano. É preciso que ele se agarre nos destroços do navio, mesmo em meio à ondas gigantescas, raios, trovões, fome, sede, exaustão física e psicológica, até que se possa chegar ao porto daquela ilha mais próxima, daquela nação que pode oferecer a você cuiados médicos, onde existe uma embaixada do seu país, na qual é possível pedir auxílio à sua pátria. E nem sempre a ajuda chega a tempo, isso quando chega. Se o resgate demorar a chegar, você precisará nadar. Nadar em alto-mar, mesmo que pareça suicídio. Parou de nadar, morreu. Você mesmo, lutando pela própria vida, ficando cada vez mais cansado a cada braçada. E eis que um barco da Guarda Costeira avista o sobrevivente ao longe. Não seja orgulhoso, pegue a boia oferecida. Suba a bordo pela escada que está disponível. Você não sabe quando outro barco vai chegar, e se vai chegar. Recusar tal ajuda pode ser o mesmo que se auto-condenar. O mais revoltante é que ajudar as pessoas nem sempre é garantia de que elas vão lhe retribuir quando o naufragado for você.

Passadas leves, rápidas e mais cautelosas, para não escorregar por aquelas ruas ainda lamacentas em certos trechos. Preferi o asfalto aos bloquetes. A chuva caía agora suavemente, era até agradável caminhar na rua, enquanto ouvia os respingos em contato com a minha proteção. Depois de descer, hora de subir. Minha casa se localizava no topo daquela rua, e não que ela fosse íngreme  mas junte chuva e tênis All Star nessas condições, que vai ser quase como ter rodinhas sob os pés.  Subi com cuidado, portanto. E cada passo me colocava mais perto de ficar mais à vontade, de enfim poder passar ao menos o que me restava do dia como ele merecia. Enfim minha morada, enfim meu refúgio. O meu portão.  E não pense que dias assim são mesmo vazios e que não vale a pena vivê-los. Ao contrário, eles são abarrotados de significado, de reflexões úteis, de sabedoria e aprendizado. Isso quando pertimimos que isso aconteça e encaramos isso dessa forma. Às vezes, um pouco de solidão é fundamental para que possamos ouvir os nossos próprios pensamentos. Às vezes é bom desligar a TV, o rádio, ficar offline por alguns momentos e um pouco online para si, na própria vida, olhar pra si próprio, prestar atenção no que dói, o que precisa ser mudado, o que precisa ser planejado, e com relação ao quê você está sendo ingrato, num descontentamento indigno. Dias assim são importantes para se tirar lições. Coisas que podem ser levadas com você ao longo de toda a sua vida. Agora, defronte do portão cinza-grafite, chave envolta por minha mão, dançando e rodopiando ao redor do meu dedo indicador, girando – uma pequenina mania -, deixo que entre por um instante em minha mente. E você estará fora dela tão logo eu destranque o que barra minha passagem. Lembra-se dos pensamentos de revolvendo e ricocheteando? Agora eles estão calmos, serenos, organizados logicamente na forma de aprendizado. Empilhados umns sobre os outros, ao fundo, com espaço sobrando para que o ar circule. Pode-se ver a imagem indistinta de traços femininos se desenhando e se desconstruindo no ar, e por fim dois grandes olhos verdes, cintilantes e absurdamente estrelados, brilhantes, radiantes, mais belos que uma noite de luar sem nuvens, noite banhada por raios de prata, que deixa à mostra pedaços inteiros da via-láctea, um mergulho em direção ao desconhecido, ao infinito, ao que parece irreal, ao que de fato encanta, fascina – simplesmente magia, magia pura.

Os pensamentos, perfeitamente organizados, com forma definida e geométrica de cubo, dizem, ao seu mero toque, que na vida não vai ter ninguém para te dar mais cinco minutos de sono ou mais um dia de descanso. O mundo não espera, o mundo não para, e é carente de compreensão.

Deslize os dedos por aquele pensamento ali. Aquele, terceira fileira do canto, pouco antes do topo da pilha. Não, não precisa de escada, apenas imagine estar levitando. Agora acredite nisso. Muito bem! Está a três metros do solo. Toque. Esse aí de cima te diz que amigo de verdade é aquele disposto a estar do seu lado mesmo debaixo de um temporal, rumo à um programa de índio.

Levite um pouco mais para baixo… Encostando nesse, você  se dá conta de que no meio da rua existem verdadeiras sagas dignas de livro a serem contadas.

Desça ao chão, veja este aqui, à sua esquerda… O tempo, quando cisma de virar, muda quando você mais precisa ou menos espera.
Mas eis que, por um segundo, seus olhos são repentinamente forçados a se fechar… E no segundo seguinte, você está diante de um projetor, que mostra você mesmo, em diversos momentos, porém na mesma situação – chegar em casa. Depois de um dia cansativo, de um dia difícil, de um dia chuvoso, desagradavelmente ensolarado, triste, incerto… Simplesmente um lugar para voltar… Sentado em sua poltrona, você vê tudo ao redor ficar escuro, o ambiente se parece com uma sala de cinema. A tela, enegrecida, mas dela você pode ver emergirem letras, num lampejo final, te transmitindo a última lição aprendida com esse dia – que importa ela ser tão conhecida? – e evocada através das imagens que viu a pouco: “Por mais humilde que seja, não há lugar melhor que o lar.”