Caracol

Sua casa estando em você
Sua casa é em todo lugar
Verá então transparecer
O que só era de imaginar.

Pragmatismo

Mandar em você ou
Mudar por você?
Talvez valha a pena
Mas prefiro o dilema.

Conter

Tentando conter
Tentando não contar
O que há pra dizer
Não vai funcionar.

Gangorra

Se pesa demais um lado
A gente dá nossos pulos
Tentamos ficar no ar
Mas os pés sempre voltam ao chão
E é mais fácil equilibrar
Com alguém do outro lado.

Pedrinha

Uma pedrinha jogada no lago
Reverberou no lago inteiro
Por isso entendi
Que eu devia ter te ajudado.

Copo

Entre o copo meio cheio
E o copo meio vazio
Melhor completar de vez
Pra matar melhor a sede.

Broto

Dorme a semente
Nem se dá conta
Que acordará broto.

Saídas

Tantas escolhas
Labirinto espinhoso
De saídas alternativas.

Nascente

Ainda que o poço esteja seco
Cave um pouco mais fundo
E verá rebentar uma nascente.

Predador

Um predador espreita
Por que espera? Que há por trás?
Sem lhe fazer desfeita:
Hora certa é a gente que faz.

Desenrolado

Ao perder o fio da meada
Se enrolou com outras tramas
E notou que na verdade
Tinha se desenrolado.

De amores e televisores

Me tirou de sintonia
Quis me controlar
Me tratou como on demand.

Previsão do tempo

Tu vens
Trovejando pelas nuvens
Liquefazendo-se em gotas
Precipitando-se sobre mim.

Compartilhar

Temos as chaves
Das portas uns dos outros
O que temos a fazer
É compartilhar.

Obviedades

Entre todas as escolhas possíveis
Escolhi não escolher
E o mais estranho
É que nada aconteceu.

Situação

Não podendo mudar
A situação
Mudou o próprio jeito
De ver a situação.

Liquidez Romântica

Vivemos tempos líquidos. Nada é pra durar.

Zygmunt Bauman

Os relacionamentos esfriam e deixam de ser “românticos” porque as pessoas deixam de ser quem elas eram. Seja por força externa ou não

Heráclito dizia que não se banha duas vezes no mesmo rio, a água que você tocou já passou, e está em constante estado de movimento. E assim somos nós. Mas em contrapartida, você pode contemplar o fato de conseguir se deliciar nessas novas águas, ou se lamentar não tocar na mesma que te deu a primeira sensação de toque, e isso é seguir.

Eu poderia ser a pessoa mais pessimista em matéria de amor romântico, mas não, porque nas vezes em que fui, eu me provei estar errada, todas as vezes que eu disse que nunca mais me permitiria amar alguém, eu me permiti depois. 

Não posso definir a minha vida por uma ou outra experiência ruim, aí vem o clichê dos aprendizados: o colher a flor no lixão, e deixar pra traz todo o resto.

A vida é um eterno recomeço, mas a vida não é eterna.

Não acredito que todo relacionamento esteja fadado ao fracasso, ou ao cansaço da enfadonha rotina. Se duas forças ativas atuantes forem compatíveis o suficiente, e trabalharem juntas para um resultado em comum, dá pra manter isso, dá para manter a paixão, dá para trabalhar os acertos e não acertos, porque afinal, ninguém nasce pronto, estamos em constante evolução e aprendizado, e é assim também com relacionamentos.

O maior vilão dos relacionamentos não é a rotina, nem o desgaste, nem o tempo que se conhecem, nem os defeitos. O maior vilão dos relacionamentos, assim como da vida num todo, é a psicoadaptaçao. É o “se acostumar”, é o “já conquistei, não preciso mais me esforçar, eu não preciso me preocupar em tentar agradar, eu não preciso me preocupar em não magoar, eu não preciso me preocupar em tentar tornar o dia e a vida daquela pessoa mais incrível, porque eu já a tenho”.

E não temos ninguém! Nem nossos corpos são nossos, porque iremos perecer e em último estágio da cadeia alimentar e do equilíbrio, vamos morrer e nossa matéria se transformará, não levaremos nada.

Eu acredito no amor romântico porque isso só acaba quando acaba o interesse, ou mútuo, ou de uma das partes, o que acaba acarretando no desgaste da outra parte, que tende a querer “levar no braço” até o final, mesmo no fundo sabendo que um fardo feito pra dois, sendo carregado por um só, não pode ser levado muito além.

Caminho

Não posso te levar pela mão
Mas posso te levar à porta
E da porta em diante
Poderá encontrar o caminho.

Paraíso operário

Expediente relaxante.
Descanso produtivo.
Consciência tranquila.

Beira-mar

Após tempestade
De pura maldade
A trovejar
Vêm águas tranquilas
Banhando as vilas
À beira-mar.

Voltar

É bom voltar
Que bom voar
Que bom, amor
Tão bom amar.

Melhor

Comercial, melhor que o produto
Trailer, melhor que o filme
Você falando de si, melhor do que o que você é.

Erremos

O erro tem a beleza
Das imagens desfocadas
Dos enganos da vida
Do riso de si mesmo.

Credibilidade

“Ah, mas foi sério.”
Que nada
Era balela
Groselha
E no duro da bolacha
A bolacha esfarelou.

Dilema do remador

Remar o barco sozinho
Ou ser puxado por outro barco
Ou remar o barco junto a ti?

Garrafas

Aí na sua ilha
Chove? Neva? Tá sol?
Não desperdiço mais
Meus sinais de fumaça
Sem receber cartas
Em garrafas.

Indumentária

Pelo apreço desmedido
A distância se faz necessária
Uma rosa vai comigo
No bolso da indumentária.

Alpinismo

O topo era tão frio e solitário
Que voltou aos companheiros
Que continuavam escalando.

Ícaro

Lhe disseram que a
Cera em suas asas
Se desmancharia ao voar
Assim mesmo voou
E descobriu que as asas
Tinham nascido com ele.

Janelas

Abri a janela do quarto
Que deu para um pátio
Que deu para o céu
Em cuja superfície celeste
Outra janela esperava ser aberta.

Sofá

Não houve página final
Capítulo final
Moral da história
Foi só um banho
Xícara de café
E um cochilo no sofá.

Loop metalinguístico

O processo criativo
É imaginar as pessoas perguntando
Sobre o processo criativo.

Bicicleta

Uma vida só com coisas boas
Seria como tentar pedalar uma bicicleta
Movendo apenas um dos pedais.

Laço

Contando segundos
Será nesta era?
Escute o chamado
Sou eu quem te espera.

Teus olhos

Existem estrelas no céu
Existem estrelas no mar
E na terra há estrelas em teus olhos
Teus olhos absurdamente estrelados.

Roleta

Nas voltas que o mundo dá
Em uma volta que você dê
Quem é que saberá
O que pode acontecer?

Galpão

Aprender é
Continuamente acender lâmpadas
Em um galpão escuro e infinito.

Antiga canção

O bardo abandonou a antiga canção
Tocando muitas outras
Mas em todas elas
Uma nota da antiga canção
Insistia em soar.

Apesar do orelhão

Quando não estava mudo
Se fazia de ocupado
Ou nem atendia.

O historiador

Não nos esqueçamos do passado
Porque ele explica o presente
E costuma se repetir no futuro
E é por isso que sempre querem
Nos fazer esquecer.

Marmitex

“Vai consumir a rima aqui, moço?”
“Não, embrulha pra viagem.”
“Já tá embrulhado, se chama livro.”

Significados e sentidos

Significado, não há
Sentido, não existe
Significado depende de quem fará
Sentido depende de quem insiste.

Vir me ver

Amor, amigo, amante
Calor, abrigo, estante
Tudo isso posso ser
Se vier aqui me ver.

Casamento

O anel que tu me deste
Não era de vidro nem se quebrou
Mas bem que a gente podia vender
Pra conseguir fechar o mês.

Cavalgar

Seja no lombo puro do cavalo
Seja numa sela modesta
Ou na mais luxuosa
O importante é tomar as rédeas
E ir tocando em frente.

Brumas do Inconsciente

Vasculhe no por do sol
No fim de um segundo
Nas brumas do inconsciente
E a poesia ainda estará lá.

Pedro Malasartes

Diante da pedra
A água a contorna
O guerreiro a usa de munição
O sábio para e reflete
O impaciente a chuta
E eu faço com ela uma sopa
Jogando-a fora em seguida.

Foto: EBC

Contraditório

Todos os pontos de
Vista são válidos
Desde que vistos
Do meu pedestal.

Portais intermitentes

Flashes de passado
Passageiros, tempos findados
Se antes a visão era enevoada
O Tempo já revela nova estrada.

Múltipla escolha

Entre a opção A
E a opção B
Costumo querer a C
Que não me foi dada
E dá mais trabalho.