Rejeitado

Dia cinzento, céu sem cor, sol sem calor… Calçada molhada, rua encharcada… Encharcada é apelido, e a Marginal tava boa pacas pra qualquer um que resolvesse dar seus mergulhinhos. Mas eu não tava mais na Marginal – agora, a mesma praça, a mesma avenida, as mesmas pessoas esperando o ônibus no mesmo ponto, falando sempre sobre as mesmas coisas…

E eu, atravessando, como sempre, a mesma avenida, com o mesmo intuito de ontem, chegar ao outro lado. A escadinha da esquina exige de mim um pouco mais de fôlego, e é aí que surge um colírio pra minha vista cansada de tanta mesmice!

Tava lá ele, no meio da rua, com cara de otário, olhando pro vácuo. Já dizia Marcelo D2, “pra quem não sabe que caminho vai, pega um qualquer”, e foi o que ele fez. Fixou em mim seu olhar, daí me seguiu. Curtiu minha companhia?

Sei lá, só sei que esteve do meu lado por todo o caminho, vez ou outra olhando esperançoso pros carros que passavam. Tô em frente ao portão de casa. E ele? Também. Sentado no chão frio e úmido, os olhos negros e suplicantes, doces, amargurados, carentes, clamando e me comovendo…

Implorou pra entrar comigo. Falar? Nem precisou, só o olhar bastava. Carinha de cachorrinho sem dono. De dog abandonado e rejeitado. E era precisamente isso que ele era: um cachorrinho sem dono…

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Ligar ou mandar e-mail?

Garanto que tu já se fez essa pergunta ao menos uma vez na vida. E talvez seja literalmente uma vez mesmo, porque a decisão parece no mínimo óbvia. Se não é por falta de tempo, é por pura preguiça de procurar por seus polegares e usar seus indicadores pra discar o número do condenado em questão.

Ou então porque, tipow, tamos na Era Internética, em que se faz tudo pelo PC (TUDO mesmo) e tá super-hiper-mega-blaster fora de moda colocar ficha no orelhão e dar um ligão. Ligão quem dava era tua vó, tua tia, teu pai e tua mãe.

A onda agora é deixar scrap no Orkut, mandar e-mail, mandar a real por MSN… Menos ligar. Mandar a real pessoalmente? “Nem, a gente resolve no MSN”. Aliás, no MSN é que todo mundo é corajoso, fala poucas e boas e manda todas as reais que quer “de head” (ou bem na cabeça).

Mas e quando é preciso falar o que é preciso no tete a tete, só com a cara e a coragem? A coragem o sujeito deixou na caixa de entrada de e-mails, e só sobrou a cara do cidadão. Cara de otário que não fala nada na cara.

Praticidade, comunicação rápida em tempo real ou quase… Mas é aí que acabamos perdendo referências de coisas tão simples. A gente esquece a voz, o olhar, o jeito, não vê as expressões, não se alegra com um sorriso. Tudo por causa dessa maldita modernidade.

É muito mais fácil se esconder atrás de uma tela de computador, assumir uma identidade fake qualquer no Orkut, ou deixar uma mensagem num mural pra que a outra pessoa leia.

Ela vai passar na frente do mural, ler, responder, vai embora, daí depois cê passa no mural e vê a resposta. Cara, cadê o contato de gente com gente? Não sabemos mais o que é conversar!

Tudo isso é medo de encarar as pessoas de frente, sem telinha de LCD de cristal líquido servindo de armadura de adamantium?

Meu, agora quem quer dar um toco não chega mais na pessoa e fala “acabou”, os relacionamentos amorosos agora são terminados pelo bom e velho Messenger. Se é que não foram começados por ele, ou tenham se desenrolado através dele, com essa babaquice ilusória de namoro virtual.

Velho, seus pais quando precisavam levar um DR tinham que ir na pracinha da esquina, conversavam no portão de casa à luz das estrelas, e se o cara segurasse na mão da moça já pensava: “Maluco, já tô pegando!”.

Tô parecendo teu avô dizendo isso, mas a real é que os valores se perderam… A modernidade e a facilidade de comunicação por mensageiros instantâneos ou redes sociais, que teoricamente serviriam pra aproximar as pessoas, tão na verdade é distanciando todo mundo cada vez mais.

Cada um em sua casa, defronte de uma máquina sem emoção, e as pracinhas ficando mais vazias, as baladas menos alucinantes, as rodinhas de amigos fazendo porcaria nenhuma num domingo a tarde nem vão existir mais…

Não dá pra exigir dessa geração algo que ela nem sabe o que é. Mas, se você também fica indignado com esse lance, se não tiver como marcar um encontro com a pessoa num barzinho qualquer pra mandar a real, desplugue-se, fique off no MSN e on na vida real. Esqueça Orkut, Facebook, e-mail, Hotmail, G Mail e o escambau a 4: ligue.

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Amor: pelo cara ou pela conta?

Naqueles programas de namoro na TV, anúncios de jornal do tipo “procuro príncipe do cavalo branco com mais de 35 anos, carinhoso e SITUAÇÃO FINANCEIRA ESTÁVEL” e nas conversas que a gente ouve por aí, dá pra notar um certo tipo de mulher.

Diferentemente das tradicionais marias-gasolina, marias-palheta e outras tantas, existem garotas que buscam homens que têm outra coisa. Ou aparentam ter.

Puxe pela memória os programas de namoro do Rodrigo Faro ou do Márcio Garcia, em que os participantes estavam à procura de um novo amor. Mudava pouca coisa de um programa pro outro.

Assistindo com o mínimo de atenção, você percebia que homens estudantes de 18 anos que acabaram de começar a vida (e que não criaram redes sociais de sucesso pra ficarem ricos antes dos 30) tendiam a ser deixados por último pelas apelidadas gatas de vestido “encolheu na lavagem”.

Enquanto isso, caras com profissão respeitável, status e aparente estabilidade eram escolhidos pelas garotas com mais frequência, e assim conseguiam ser mais bem sucedidos no amor.

Claro que, pelo fato de ser programa de TV, tem um script ali, e não sabemos até que ponto ele vai, ou se define até mesmo a atitude das moças perante os caras.

Mas esses anúncios amorosos em certos jornais (atestado de desespero?) e as conversas cotidianas apontam pra uma tendência alarmante: a da mulher que prefere se relacionar com homens ricos para ser sustentada e bem sucedida por tabela.

A outra opção é estudar anos numa facul e concorrer a disputadas vagas de emprego. Perspectiva bem menos sedutora.

O triste dessa tendência é que ela vem se solidificando a ponto de se tornar projeto de vida. Carreira. Quase uma profissão. Uma espécie de novo ramo derivado da prostituição.

Afinal, o que é isso senão vender favores sexuais? Triste também a precificação do Amor em si. Um relacionamento que era pra ser com o cara e acaba sendo com a conta. A era das prostitutas furtivas.

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Infidelidade cultural

Duas paixões. Fiquei dividido hoje entre a Pena e os Acordes. Entre a Escrita e a Música. De certo modo as duas coisas sempre caminharam lado a lado comigo.

Porque pra fazer letra de música, mesmo as piores, precisa escrever. Mas tem a “parte dois” da música que tem um encanto diferente. E esse encanto é justamente cantar.

Ainda mais quando catei meu caderno velho cheio das velhas composições e relembrei saudoso algumas que marcaram minha vida. E a vida de outras pessoas, indiretamente, sem que elas sequer soubessem disso. Mas voltemos às paixões.

E fiquei mesmo com uma delas, mas com a cabeça na outra. Pensei “só meia hora e vou lá escrever qualquer coisa”, mas não. Os acordes foram me seduzindo a ponto de 3 ou 4 horas passarem a jato.

Daí, o que sobra pra escrever? Alguns minutos na madruga, antes de dormir. Uma noite chuvosa e eu ainda querendo arranhar mais algumas notas nas cordas Ernie Ball já bem enferrujadas e com o som abafado. Opaco. Mas ainda assim envolvente e poético.

Perdão, Pena, hoje os acordes levaram a melhor. Mas o melhor de tudo é que ao menos nessas duas paixões não tem problema ser infiel.

Posso passar um tempão com uma e apenas alguns minutos com a outra, sem ciúme, sem cobranças ou expectativas. E ao final ter a certeza de que algumas pitadas de Arte sempre enriquecem nossos dias.

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O Dilema do Sacrifício

Então ela mandou mensagem dizendo que precisava colocar um número enorme de horas de sono em dia. Que se sentia cansada, não apenas pelo percurso do dia, mas também pelo caminho trilhado durante toda uma vida. Apesar de não ter sido uma vida particularmente longa, só nós sabemos qual a real duração que cada ano tem pra nós.

Alguns anos passam com a leveza de uma bolha de sabão, e outros dão a impressão de que estamos puxando uma pesada corrente colossal cujo comprimento vai da superfície da Terra até seu núcleo. E essa sensação invariavelmente nos atinge de vez em sempre.

Respondi qualquer frase feita sobre parar de falar coisas deprês. É que não me ocorreu nada inteligente ou útil pra dizer no momento. Mas aí ela comentou que tinha uma amiga desesperada, pedindo ajuda porque tinha terminado um namoro, naquele exato segundo.

E mesmo destruída ela precisava ajudar. Aí sim eu finalmente disse uma coisa mais aproveitável: falei que Amizade e Amor requerem sacrifícios.

“Que custam muito, muitas vezes. Mas enobrecem o coração”, ela me respondeu.

Conclusão: existe muito mais beleza em um papo casual do que nessas linhas que rabisco diariamente.

Os escritores nada mais são do que plagiadores da realidade esboçada pela Vida. As verdadeiras histórias, a verdadeira poesia está todo dia esbarrando em nós e não nos damos conta.

E os sacrifícios… Quais sacrifícios você faria se soubesse antes que teria em troca pouco ou nada? E se soubesse que haveria retribuição, ainda assim isso poderia ser chamado de sacrifício?

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Você mente

Ninguém é tão ocupado 
quanto diz ser
 (A gente sempre arruma tempo pra tudo que nos convêm)
Ninguém tá tão endividado 
quanto diz estar
 (Exageramos o tamanho das nossas dívidas pra que ninguém nos peça dinheiro)
Ninguém tem uma vida tão difícil quanto diz ter
 (Temos medo da inveja alheia e do que ela faz as pessoas capazes)
Ninguém tá tão cansado quanto diz estar
 (Cansaço é uma desculpa clichê que cai bem pra tudo)
Ninguém é tão bem-sucedido quanto diz ser
 (Nos engrandecemos pra que nossos fracassos pareçam mais suportáveis)
Alguém vai ter coragem de admitir que mente?
 (Não pros outros. Quero ver admitir que você mente pra si mesma)
Alguém vai ter coragem de admitir que mentimos uns pros 
outros sem parar?
 (E vai parar de achar isso normal?)

 

Imagem: Disney

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Partículas

Se você parar pra pensar, tudo se origina do nada. Primeiro tem o vácuo, o vazio, esperando pra ser preenchido. E uma mera fagulha que se materialize, um átomo, um elétron que seja, um pensamento, uma intenção, uma ação, até mesmo o impulso elétrico que passa por neurônios, tudo isso surgiu onde nada havia. Antes era zero. Ao acender a lâmpada se tornou 1. Percebeu?

Em se tratando de pessoas, com certeza vai ter um chato aí dizendo que tem ações que começam com pequenos indícios, com pequenos sinais aqui e ali anunciando a ação principal. Mas esse mesmo chato pertence à categoria de pessoa que fica surpresa até mesmo com os indícios iniciais.

Mesmo no caso desses pequenos indícios que anunciaram a ação principal, havia primeiro a ausência de sinais. Ausência de ação. Vácuo. Vazio. E esses pequenos indícios simplesmente surgiram do nada. Por mais que eles anunciem alguma ação maior que se desenvolva posteriormente. Percebeu outra vez?

É por isso que mesmo as fagulhas de atitude são materializações grandiosas. Conseguir conjurar mesmo que um indício de ação onde antes não havia nada é ser o motor, o combustível, o esforço primordial na realização de alguma coisa. Nunca despreze as fagulhas de atitude nem o equipamento gerador delas: as pessoas.

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