Dualidade

É tarde. Sei. Tarde demais para tentar dormir, cedo demais para isso tudo acontecer. Um quarto no centro da cidade, a bagunça habitual, lençóis revoltos envolvendo o corpo, pensamentos torturantes na mente, o peito dilacerado pela lâmina da verdade.

Frágil armadura de que disponho, ou subestimo o poder de tão avassalador impacto? Do sétimo céu às profundezas abissais. A tênue fronteira entre amor e ódio. Explicações, pra quê, se o que vi se explica por si só? Perdi a cabeça, dei-lhe uma bofetada.

Agredi a face que por anos a fio afaguei. Ingrata! Meus olhos estão marejados. O telefone tocando alucinadamente, doce sinfonia do remorso. Os sumiços, a frieza, as ligações no celular… Enfim descobri. E a feri com a fúria do verbo, poder bélico da Palavra.

Terrível impacto. Amor, e por ele serei superior – ou fraco? Amo, odeio, odeio, amo. Vou atender a ligação, irei sucumbir. Odeio a mim mesmo por amá-la. Odeio a ela por não me amar.

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A Única Amiga

Há tempos a gente se conhece. E não é exagero dizer que crescemos juntos. Em meio aos meus primeiros rabiscos, sem coordenação nenhuma nos movimentos, até os mais elaborados traços, rabiscados, esboçados, apagados, aperfeiçoados em vão por um ser sem qualquer perfeição e com a pretensão de tê-la, em todos esses momentos você me observava. Paciente com as figuras sem proporção criadas por mim, no início. Sendo por vezes o único porto seguro onde eu me refugiava de dias cruéis. Dias terríveis. Mergulhar com você em meu próprio mundo, onde nada poderia nos atingir, onde só havia a Imaginação. A Criatividade, que você me ensinou tão bem. E sempre foi gratificante voltar dessa nossa realidade alternativa, e mostrar às pessoas as belezas que juntos descobrimos. Fazer rostos amigos se transfigurarem em expressões de admiração, e não raro de inveja. Afinal, ninguém mais sabe como chegar à nossa dimensão e de lá voltar com cópias de formas perfeitas do que ali existe.

Tempos de amores enevoados e turbulentos vieram, e nem mesmo nesse momento você conseguiu me abandonar. Pudera, sempre te levei pra todo lado. Depois das mais maravilhosas noites ao luar com uma amada, era a você que eu corria pra contar o quanto me sentia feliz. Foi você a primeira a conhecer as músicas que os momentos da Vida gravaram em minha mente e eu simplesmente traduzi em palavras, com sua ajuda. E você ali, praticamente lendo meus pensamentos e sabendo do que estava se formando quase ao mesmo tempo que as ideias iam passando pela minha cabeça. É, Minha Querida, nossa ligação é íntima demais para que qualquer outro mortal entenda. É pretensão demais pra qualquer outra pessoa querer compreender isso. Não só as músicas que criamos, como as Cartas de Amor endereçadas a corações indignos de saborear os nobres sentimentos, sem nunca conseguir irradiá-los.

Os sentimentos sempre terminam por ficar gravados em você, mesmo com o passar de incontáveis voltas de relógio. As mais sublimes auras que me envolveram e me levaram a recitar poesias ao pé do ouvido, criadas na hora, sem ensaiar, e ainda assim com o sabor de algo que levou eras para ser aperfeiçoado, e também as mais negras brumas de fúria obscura que revelaram o pior que há em mim, meu lado negro, tudo isso você presenciou. E me ajudou a materializar. Com sua ajuda afaguei faces, esbofeteei outras. Você me fornece o bálsamo pra curar aqueles que quero bem, a espada para atacar, o escudo pra me defender, e agora me sinto tão dependente de você do que já fui de qualquer de minhas amadas, de qualquer de minhas Musas. Então você se provou ser minha melhor amiga. A única amiga real que já tive em vida.

Logo você, tão frágil e discreta, sempre tão pálida e calada, nunca soube da importância que tem pra mim.  E é essa importância que eu te faço saber e existir, a partir de agora.

O melhor de tudo é que, olhando pra você, consigo enxergar a mais sincera e fiel companheira que jamais vou ter, enquanto os olhos limitados, míopes e até mesmo cegos de pessoas que não sabem ver a beleza de sequer um por do sol vão enxergar, somente, uma folha de papel…

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Lâmina Aliada

Sobre ela, não sei o que dizer. Só sei repetir o que dizem por aí, e andam falando que é dela que você precisa pra ser feliz. É em busca dela que a gente, do vácuo, vai lá naquela pessoa encostada num canto, isolada do resto de tudo porque quer ou por não ter outra escolha, e puxa um papo qualquer. Acabamos dizendo aquele “bom dia” de quem tem a vida perfeita, mesmo tendo passado pelas piores barras para estar ali. Diante de um estranho, cumprimentando e perguntando se tá tudo bem.

Se a outra pessoa estiver disposta, o papo rola, depois é um tal de me adiciona daqui, me liga de lá, as afinidades de cada um aparecem e aí as duas pessoas já não são tão estranhas assim. Se parecem com a gente. Têm opiniões parecidas, passam naquela mesma livraria movimentada só pra ver as capas dos livros, só pra imaginar qual conteúdo cada um deles pode ter. No final do dia, um capuccino com pitadinha de menta ou o que quer que seja na mesma boa e velha cafeteria. Conversas. Muitas conversas, que mais cedo ou mais tarde chegam ao ponto de serem confidências.

Daí, o estranho que se parece com a gente se torna familiar. Seja uma criança inocente por um segundo e pense pela seguinte lógica infantil: se é familiar, é porque é da família, certo? Ou, pelo menos, é assim que deveria ser. Tratamos um estranho como se fosse da família, nos enxergamos neles e os queremos sempre por perto. E quando essas pessoas que consideramos mais parentes do que quem tem o mesmo sangue fluindo pelo corpo resolvem nos abandonar?

Se lembra daquela adicionada, das trocas de telefone? Pra quê, se o irmão que você escolheu ter não atende telefonemas e te bloqueia em tudo que é rede social? Cadê a prova, no duro da bolacha, de que aqueles lances de “pode contar comigo” ou “você é mais que um irmão pra mim” são de verdade? Sim, o Tempo é o cara que vai apagando aqueles riscos e esboços que você desenhou na folha da sua Vida. O Tempo deixa na folha só o que é real. Todo esse tempo, você esteve fazendo um retrato.

Alguém que acabei de te falar apaga as linhas que você usou como base pra fixar a imagem daquela pessoa na folha. Na sua Vida. Se o que sobrar for uma imagem nítida de alguém querido, meus parabéns, você conseguiu uma coisa que por agora tá valendo muito mais do que o próprio peso em ouro: um amigo de verdade. Caso reste só uma folha em branco, você foi abandonado. Por um estranho que você acolheu sem julgar, sem condenar, nem rotular, e ofereceu sua amizade sincera. Amizade. É disso que eu tô falando. Vasculhe seu Facebook e tente contar quantas pessoas você realmente conhece. Se não forem poucas, procura aí pela galera que você mantém contato.

Com quantas delas você conversa no final do dia, no final de semana? Ou só no fim de ano? Experimente perceber quantas delas são suas amigas. Não colegas, conhecidos, chegados, nada disso. Do que adianta ter trocentos seguidores no Twitter, se quem te segue de verdade, te persegue e te procura só pra saber se você tá bem tá lá fora, no mundo real? Ou do seu lado, tentando falar contigo enquanto seu MSN não para de ficar apitando janelinha com uma porrada de pessoas fúteis e idiotas, e que não pensariam duas vezes em te deixar na primeira oportunidade? Te convido a rever a própria vida. Com quem anda se metendo, e que proveito tem tirado disso.

Já que a lâmina aliada é a mais letal, não se espante se seu melhor amigo te trair por qualquer maldita razão que seja. Não te digo pra não confiar em ninguém, simplesmente confie nas pessoas certas, mesmo que isso signifique que você só possa, no final das contas, confiar em si mesmo. Se você tiver alguns poucos e bons amigos de verdade, você é uma pessoa de sorte. Não tá sozinho. Observe quem abandona o barco quando ele tá sob ameaça de ser bombardeado. E quem volta, e como volta, se por acaso for alarme falso.

Talvez, na busca pela Amizade, um amigo te abandone. Não faz mal. Apesar de ferido por uma espada que por vezes lutou ao lado da sua, pelo menos vai poder prever os próximos golpes. E se preparar. Duelar, revidar, se vingar? Não se rebaixe. Quem abandona um amigo não é digno de partilhar do elo celestial capaz de aproximar os opostos e promover a fraternidade. Simplesmente fazer o ser humano ser um ser mais humano.

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Ingratidão

Créditos: Sandra Dore – Pinterest

Olhando à sua volta, você é capaz de enxergar tudo o que está ao redor? Não é tão simples quanto parece. Quem dera fosse preciso apenas abrir os olhos… Olhos esses que tantas vezes estão tapados, vendados ou fechados pela nossa própria vontade.

E não raro imaginamos estar enxergando a tudo e a todos, quando na verdade a vista está levemente embaçada, as cores se apresentam opacas, os contornos desfocados, desalinhados, terminando por compor enfim uma imagem deformada. E irreal.

Podemos acabar concordando com ela, aceitando-a, e caso ela não agrade, praguejamos aos quatro ventos. Se este for o seu caso, te indico a fonte no alto daquela torre, próximo ao despenhadeiro que tem como companhia o mar revolto.

Terá que percorrer uma escadaria longa e cansativa, mas este é o preço a pagar pela consciência da verdade, da realidade. Mergulhe a cabeça na pia de mármore, que abriga certo volume de um líquido cristalino, que agora reflete sua própria imagem.

Tudo o que te impede de ver claramente vai se dissipar. Agora, abra seus olhos e veja! Veja tudo o que possui, o real valor de tudo o que tem. Tudo o que te cerca, o que está ao seu redor, entenda o quanto pessoas que enfrentam situações bem piores dariam muita coisa para estar no lugar que agora é ocupado por você.

Tantas pessoas sem casa, sem pão, sem amigos, sem amor, sem paz… Do alto dessa torre, tudo isso é visualizado… Olhando para o fundo da pia, você vislumbra, espantado, algo que ficou depositado ali… As dobras do tecido movem-se com o deslocamento da água, e da venda negra você pode sentir a aura do que realmente é ingratidão.

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Sabor de Bolinho de Chuva

É pequeno, admito. Mas me abriga do frio. Me recebe todas as noites depois dos dias mais cinzentos. Nele costumava caber tudo o que eu precisava, todas as coisas, os objetos, as pilhas de quadrinhos mal-acabados, e por irônica coincidência, eu. Pra não ficar tudo igual, mudo de tempos em tempos. Mudo de ares, de energias, de organização e arrumação. Os objetos, preenchendo o ambiente de forma inocente, denunciavam que ali dormia um ser infantil.

Poucos livros sobre a cômoda, brinquedos espalhados aqui e ali, desenhos, rabiscos coloridos e pensamentos idealizados de um mundo perfeito, guri bobinho que desconhece a vida. Caixas de jogos, brincadeiras cada vez mais elaboradas, amigos inseparáveis, gosto de bolinho chuva! Sabor de infância… Mega Drive, Master System e tardes inteiras tirando um lazer pelas telas do bom e velho, antigo-novo mascote da Sega. Decks de cards do Yugi-Oh!, bolinhas de gude, tazos do Pokémon, e as tardes radiantes de fim de semana. E não tão tarde, eu voltava pro interior dele. Exausto de tanto brincar. Exaustão que sempre me aflorava sorrisos cativantes mesmo que em sono profundo.

Sóis e luas aparecendo cada qual no seu turno, o tempo passando e as mudanças vindo. Ferozes. Logo as pequenas miniaturas de personagens de animação da época, o balde amarelo de Lego e os soldadinhos de plástico que eu comandava nas horas vagas se enfurnaram em qualquer canto. Qualquer lugar ali, no armário. Tudo amontoado, e novas coisas chegando. Novos livros, os CDs, o CD Player, o violão empenado, as primeiras canções, o velho All Star preto e inseparável implorando pra ser trocado o mais urgentemente possível. É, acho que mudei um pouco.

Agora surgem pôsteres nas paredes. As figuras de ação foram engavetadas, e às maiores reservei uma repartição na estante. Tá lá pra quem quiser ver. Pensando bem, não, mudei um bocado. É o lugar no qual crio, no qual durmo, onde escrevo, onde da janela fiz confidências à lua, de coração partido, nas noites intermináveis e dilacerantes de amor não correspondido. Um resquício de esperança de encontrá-la: surge um retrato na parede. Me desengano, afinal, nem sempre é de primeira que a gente acerta, deixo a moldura que abrigava o desenho vazia… Assim como estava meu coração. Desenho rasgado, ilusão desfeita, dor passageira. E depois, uma aproximação sutil, palavras sussurradas ao pé do ouvido, emoção, adrenalina, e agora o quarto enche-se do que se convencionou chamar de amor. No rádio, uma música rolando pra marcar o momento de vez. A nossa música. Mudei um bocado? Não, mudança não é o termo exato…

Hoje, me deito na cama, e só de abrir os braços posso percorrer e alcançar todo um mundo particular, que é só meu. Grande demais para a cama, para o quarto, pra caber nesse lugar. É preciso algo mais, mais espaço, mais liberdade. Tem toda uma vida acontecendo lá fora, vejo pela janela. Vinda do portão da frente, ouço uma voz familiar e tão doce quanto os beijos de sua dona me chamar, de um jeito particular, de um jeito que só ela sabe… Grande demais para caber em meu próprio quarto. Não que ele não me sirva mais, mas preciso sair daqui. Preciso abrir essa porta, correr ao portão, preciso vê-la, preciso viver. E agora, sinto mais do que nunca, a criança, o adolescente e o adulto unidos em um único ser: eu. Se mudei? É muito mais que isso. Cresci…

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Ruiva

Três ou quatro pontos depois da escola? É a pergunta que me martelava a cabeça quando enfim passei pela tal da escola. Na dúvida, acabei descendo no próximo ponto mesmo. Colinas verdejantes, terras não tão distantes. Fui, mesmo sem saber direito pra onde tava indo. Seguindo reto, sempre em frente. “O ponto em que ela estiver é o certo”.

Mas ela não tava em nenhum ponto! E minha saga pra achar o lugar continuava, seguindo retão. Olhar de relance pra placa e saber onde tá é uma boa, e foi o que fiz. “Pelo menos a rua eu acertei”. Me senti uma anta zarolha por não ter anotado nada, nem a rua, nem o número, nem em quantos pontos depois da escola descer. Saco… Tava eu, seguindo em frente, com essas divagações na cabeça, quando ouço uma voz doce e delicada dizer (uso “dizer” porque vozes desse tipo não se usam pra gritar): “Ei, espera!”.

Eu reconheceria essa voz em qualquer lugar do mundo… Paro um instante, e me viro devagar. Uma figurinha carimbada, rosto bem conhecido, os cabelos ruivos irradiando toda sua energia e sua cor ao mero toque radiante da luz do sol… Um cumprimento ofegante entre os dois, e é preciso voltar, passei reto do lugar certo… Mas, de qualquer modo, cheguei!

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Água com açúcar…

Cena do filme Diário de Uma Paixão (2009), de Nick Cassavetes. Com Rachel McAdams e Ryan Gosling. Adaptação do livro homônimo de Nicholas Sparks (no original é The Notebook)

Aceita um copo de água com açúcar? Sim, isso mesmo, e não precisa fazer essa cara de desdém. Nem precisa beber se não quiser, mas assistir… Sim, senhoras e senhores, o assunto do papo é a 7ª arte (cinema) versão água com açúcar (acho que ouvi gritinhos histéricos das meninas… Rsrs…).

Se você é uma garota, pode ser que adore. Se é um cara, pode ser que assista. Assista sim, mas obrigado pela namorada e coisas do gênero, que na época das locadoras ia direto para a prateleira de fitas de comédia romântica, ou romance puro mesmo. Posso dizer com toda a certeza que a maioria dos caras não só não curte nem pra banho esse tipo de filme, como só aceita assistir por causa da companhia. Se é que prestam atenção. Se você é uma garota, experimente perguntar pro seu namorado ou o que for mais perto disso o que ele achou do filme. Melhor ainda, peça pra ele contar a parte mais tocante. Vai ficar claro o interesse dele ou não.

O que mais me irrita é que tem caras por aí que fingem gostar desse gênero de filme, e outra coisa que não acho legal é que certas garotas meio que impõem filmes assim pros namorados. Nem uma coisa nem outra é interessante… Pra começar, os caras que não curtem esses filmes podiam admitir isso, e as garotas que não assistem outra coisa podiam abrir mais o leque e simplesmente assistir coisas diferentes com seus amores.

Até porque cair na rotina é osso…

Na real, nem eu curtia esse tipo de filme, mas aprendi a gostar. Dentro desse gênero, existem filmes que contam a história de qualquer parzinho romântico à escolha. Até aqui, nada de mais, com a diferença de que não são contos de fadas. Casais normais, comuns, perfeitamente possíveis, reais. Eles não vivem num castelo, não moram num reino distante e feliz, governado por um rei justo e bondoso. Eles tão é no coração de uma cidade grande, com uma vida cheia de problemas, cheia de desencontros entre os dois, e por que não traições?

Eles têm defeitos também, que os dois terão que aprender a conviver e aceitar. E mesmo assim, conseguem ser felizes no final – ou não, mas isso é a vida. Retratar o amor como ele é, as relações amorosas entre as pessoas como elas são. Essa busca por realismo no roteiro faz com que cê se identifique com tudo aquilo, ou quase tudo. Talvez você tenha passado por algo parecido. E é aí que você entende o que é, na verdade, um filme água-com-açúcar: um retrato quase fiel da vida amorosa de qualquer um.

Foi assim que eu aprendi a assistir e a gostar do que eu chamava, com um tom sarcástico, de água-com-açúcar. E é o que vai rolar com alguns caras também. A menos que eles sejam os legítimos cafajestes, mas cafajeste também se apaixona um dia. Até aí tudo bem, mas ser fiel é outra coisa…

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