Portais intermitentes

Flashes de passado
Passageiros, tempos findados
Se antes a visão era enevoada
O Tempo já revela nova estrada.

Múltipla escolha

Entre a opção A
E a opção B
Costumo querer a C
Que não me foi dada
E dá mais trabalho.

Verdadeira você

A você que eu imaginava
Não era a verdadeira você
Eu sempre devaneava mas
Só agora entendo o porquê.

Guardião

Quem dera por seus olhos ver
Tudo aquilo que você vê
E sempre poder correr
Para perto e proteger você.

Carma

Parece que foi outra vida
Parece outra dimensão
Mas já terminamos a lida
Para esta encarnação.

Trem a vapor

Até mesmo o melhor
trem a vapor precisa
de um suprimento constante
de lenha pra sair do lugar.
É, nem precisa de rima.

Band-Aid de coração

Para a viagem já tenho a passagem
Mala e cuia e chapéu e esperança e Aspirina
Horário do avião e vontade e ventilador
Só não tenho Band-Aid de coração
Se sua decisão for não.

Todavia

Sonhei com alguém, que alegria
Não foi com você, todavia
Tão doce canção entoada
Mas não foi pela sua chegada.

Oração da Ninfa

Minha Deusa! Me sinto vazia!
Alguém arrancou um pedaço de mim!

Minha Deusa, minha amiga!
Oh vem e ilumina o negrume que há aqui…
Pois tudo parece se repetir outra vez…


Mas minha Querida, do inferno sabes que renasci…

Musa minha, tenho medo
de voltar ao útero mortífero do qual saí…
Por isso crava em mim os teus segredos,
Para que viver em mim seja tão simples quanto partir.

Aula de francês

Verso que insiste em se esconder
Debaixo das pedras
No fundo de uma gaveta
Nas esquinas dos pensamentos
Venha sem demora, porque
Ainda tenho aula de francês.

Paixões e amizades

Que as paixões cegas
Não se sobreponham à amizade
Amizade que é mais que coleguismo
Ó amizade, que entrelaça almas.

Novo mundo novo

Mesmo o que era um mundo novo
Aos poucos, envelhece
E passa a ser o arauto
De um novo mundo novo que virá.

Alucinada

As palavras escritas soltas, paralelas e despropositadas

Tem a essência da tua vida

Tão louca e enevoada…

a fumaça é a única que te salva

é a única que não te abala…

Mentor

Vi em você mil defeitos
E caridosamente desci do Olimpo
Para te agraciar com minha divindade
Mas no final das contas
Quem precisava ascender era eu.

Nobre vagabundo

Eu escolheria você
E renunciaria ao resto do mundo
Eu escolheria você
Pra você escolher este nobre vagabundo.

Lida e Sina

Eu me canso tanto…
Comigo mesma e de quem sou..
Me canso do meu jeito e de cada meu pensamento…

Me canso do que sinto
E do que em mim passou…

Eu me canso tanto comigo
E comigo mesma
Que me canso de nosso amor.

Liberdade do segredo

Se eu te contar um segredo
Segredo não mais haverá
Segredo, meu doce brinquedo
Verdade não me libertará.

Mina do recomeço

O direito ao recomeço
Não é dado por alguém
Nem é dado por ninguém
Mas brota perenamente
Da mina que há em mim.

Convergência temporal

Eis que subitamente, no corredor
Passado, presente e futuro
Se reuniram em um único ser
Que agradeceu por ser o centro
De tamanha convergência temporal.

Sereia do deserto

Caminhando pelo deserto
Pés afundam na areia
Um oásis ali por perto
Esconde uma bela sereia.

Pontuações sombreadas

Envolta em sombras
Preferiu a vírgula
As reticências
Sem jamais recorrer ao ponto.

Conta de luz

Ideias, ideias que persigo
Venham acender lâmpadas
Sobre nossas cabeças
E com essas lâmpadas, quem sabe
Economizemos na conta de luz.

Enigmas ambulantes

Se eu entendesse
Pegaria minhas coisas e iria embora
Ou te abraçaria, suspirando:
“Por que não me disse antes?…”.

Elos fatais

Antigos eternos
Enlaces cabais
São laços fraternos
São elos fatais.

Limiar

Sonho pesadelo, sonho acordado
Ao dormir, avanço no espaço-tempo
Pela brecha de uma dimensão, te vejo
Não preciso mais cruzar o limiar
Apenas te deixo existir em sua linha temporal.

Poemas modernos

A poesia sobrevive
Por entre as engrenagens das máquinas
Na aridez dos números das planilhas
Nos sonhos daquele que aperta o botão.

Bem tão bom

É um bem tão bom
estar de bem com alguém.
Tão bom que faz bem.

Caráter

Relembrar é reviver
É olhar estampa de camiseta
E ser transportado a um tempo
Em que você fingia ter caráter.

Desconsolo

Hoje o dia me pediu uma obra, assim triste, assim singela

O vento frio me pediu lágrimas, assim geladas, tão mortas e secretas.

A solidão que me cerca, é vazio amigo, há muito tempo presente no peito

Medo tenho dos poços escuros e de quando adentrei em infinitos becos.

Meu coração é um túmulo de ideias, sentimentos e canções mortas

Carrego em mim o acovardamento da loucura que me cerca

E das psíquicas portas.

Há dias em que acordo, a garganta se fecha em desespero

Pequenina me recolho em minha mente

Tento expulsar os demônios sempre ali presentes.

Pois meu coração é um túmulo, no qual busco enterrar o que já fui

Minha essência é um equilibrista, que sem experiência

Caminha na corda bamba.

A ponto de cair

Sobrevive por um triz. 

Avaro

Que o raro não
Seja tão caro
Que eu tenha
Que ser avaro.

Nudes

Mandam nudes do corpo
Para não precisar mandar
Os nudes da alma.

Segredo de fechadura

Entre ser simples e ser complicado
Preferiu ser enigma
Ser esfinge, segredo de fechadura.

Apesar

Te conheço. Ainda que cubras o rosto
Que mude seus modos, troque suas vestes
Mude de cidade, país ou dimensão
Sabes que te conheço
E te aceito apesar do que és.

Harmonia

Os passos mais leves, nem barulho fazem mais
O vento desliza pelos contornos de seu corpo
As árvores dobram os galhos em reverência
E o sol ilumina seu melhor perfil.

Engrenagens íntimas

Tempo tiquetaca
Tanto tempo tanto tique
Tique-taque tique-taque
Tiquetaco tão sem tempo.

Minha entrevista ao site “Como eu Escrevo”

Fui entrevistado pelo site Como eu Escrevo, um projeto muito bacana que perguntou a vários escritores sobre seus hábitos de escrita, rotina, preferências e visões sobre literatura. Abaixo você confere um trecho da entrevista e um link para o texto completo.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Sei que não é algo muito fora do normal nem interessante, mas costumo começar o dia com o café da manhã. Geralmente é café com leite, acompanhado de pão com margarina, com queijo ou frios. Antes da pandemia, eu costumava acordar às 6 da manhã e me preparar para sair de casa às 7, para trabalhar em uma função não relacionada à literatura. Apesar disso, o tempo todo estou pensando em coisas para escrever, inclusive de manhã, no transporte público. Acabou virando um hábito. Acho que isso se deve em grande parte ao Fala Aeh! (https://falaaeh.wordpress.com/), um blog que eu mantenho desde 2009 e me ajuda a escrever quase todos os dias. Acabo tendo ideias pela manhã, mas sinto que penso melhor à noite. Em geral, tenho muita preguiça durante as manhãs.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Sem dúvida, de noite eu escrevo bem melhor. Em parte é porque a preguiça da manhã passa quando a noite chega. No mais, parece que a ausência de sol e a presença da lua e das estrelas me afetam de algum modo. Às vezes me pego olhando o céu noturno, então penso no universo e os mistérios que ele abriga. Um bom exemplo das limitações do conhecimento humano está justamente no universo e o quanto ainda não sabemos sobre seus limites, origem, possíveis civilizações… Então penso no universo que existe em cada um, e o quanto não sabemos sobre o universo dos outros e do nosso próprio. Esse mistério, que pra mim ronda tudo o que existe, me atrai de um modo irresistível no sentido de tentar entender. E pra tentar entender a vida de modo geral, escrevo. É claro que de dia o universo continua lá, mas isso me parece muito mais evidente quando a luz do sol não ofusca todos os outros astros. Além disso, as noites me parecem mais silenciosas, tranquilas, e ouço no máximo latidos distantes de cachorros. Essa calmaria permite, digamos, que as águas da minha mente parem de se agitar e me permitam ver o que está no fundo. Quando isso acontece e não tenho nenhum compromisso no dia seguinte, costumo ter madrugadas bem produtivas.

Não tenho propriamente rituais para escrever. O mais comum é eu estar em um estado emocional que só eu conheço, mas não consigo explicar bem. Quando entro nesse estado, é comum que eu anote coisas no celular ou pedaço de papel mais próximo. Tem também outra coisa, que eu considero mais uma técnica do que um ritual: se quero usar uma experiência pessoal como ponto de partida para escrever, ouço uma música que me faz lembrar de determinado momento. Essa associação entre momento e música ocorre naturalmente e com frequência, porque sempre estou ouvindo álbuns e discografias inteiras. Ao ouvir a música associada à lembrança, mergulho numa atmosfera emocional que simula o que foi vivido. A partir daí, tento traduzir as imagens da memória em palavras. Claro que não é um processo exato, mas é um dos poucos que conheço.

Leia na íntegra clicando abaixo:

Retornos

Pouso no poleiro
Primeiro pé dentro de casa
Encontro do seu abraço.

Caminhoneiro

Descida em ponto morto
Coloca primeira na subida
Mas sem deixar de rodar.

Ganhar

Buscar sua resposta
Foi só uma aposta
Do receio de perder
À certeza de ganhar.

Luz e calor

Que a chama não se apague
Que a lanterna ilumine
Que a fogueira aqueça
E a vela dure até o amanhecer.

Lago

Lago seco
Posso ver seu fundo
Mas encostando o ouvido na terra
Pude ouvir o murmúrio tranquilo
De um curso d’água.

Corrida espacial

Um céu tão infinito
Tem espaço pra tantas estrelas
Todas elas podem brilhar
Sem que transformem umas às outras
Em fatais buracos negros.

Folhas

Renovam se as folhas secas
Que caem e são levadas pelo vento
E a árvore não as pede de volta
Só espera sabiamente por novas folhas.

Slow motion

Tempo real
Tempo psicológico
O real, play em velocidade normal
O psicológico, slow motion.

Presente de grego

Ganhou dos deuses a solução
De todos os problemas
Minutos depois pediu
Um probleminha sem solução
Só pra passar o tempo.

Descaminho

Te desencaminhei para
lhe mostrar outro caminho
Mas, no final, eu é que
Precisava do descaminho
Onde te encontrei.

Caminho da corda

Equilíbrio, apesar da gravidade
Pesam os pesos de um só lado
Compensa com suavidade
E acena à plateia pelo agrado.

Leitor de título

Leitor de título
Que não abre o link
Comenta groselha.

Figurinhas

Vamos trocar pensamentos
Como quem troca figurinhas
E no final sairemos
Com as próprias figurinhas
Mais as figurinhas um do outro.

Sempre

Sempre há tempo para
Mais um poema antes da meia-noite
Mais um beijo antes da despedida
Mais um bocejo antes de levantar
Mais uma chance antes de desistir.